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Mas tem que pagar?

No primeiro semestre da faculdade de psicologia, a turma deve ter tido umas quinze desistências.

Alguns porque não gostavam do curso, alguns porque moravam muito longe, mas a grande maioria largou o curso porque descobriu que psicólogo não podia dar palpite na vida do outro.

Infelizmente, ainda não há faculdade que ensine a saber mais da vida da outra pessoa do que ela mesma.
O que não impede que muita gente exerça essa atividade informalmente.

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Quase todo dia alguém vem pedir uma sessão comigo e pergunta se tem de pagar.
Eu estranho, mas não posso falar nada. Me faço a mesma pergunta toda vez que recebo a fatura do cartão de crédito.

Comentei isso no Facebook e pelo visto essa história de querer um serviço sem pagar por ele é epidêmica.

Muita gente contou suas histórias, a conversa foi evoluindo, e alguns contaram outros tipos de absurdos que escutam dos seus "clientes". Selecionei algumas para ilustrar esse texto aqui.

Ficam duas perguntas:

Por que as pessoas acham que devemos trabalhar de graça?
Por que elas acham que entendem melhor do nosso trabalho do que a gente?

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Não apenas o outro sabe o que é melhor pra mim, como também se julga capaz de entender minhas necessidades e dizer do que eu realmente preciso.

Tinha uma amiga da minha vó que fazia isso. Chegava no portão e falava "Cê sabe da Elaine, que se separou do marido? Tá vivendo de pensão, coitada. Mas antes de despertar qualquer empatia, já emendava:
"Mas ela tava no mercado agora e o carrinho tava como? Cheio de pizza congelada. Nem julgo de ser desquitada, mas comprar pizza com dinheiro de pensão?"

E, sei lá, às vezes a mulher comprava pizza porque era o que dava pra comer rapidinho entre um emprego e outro.

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Mas se:
1 - Eu quero o que o outro tem a me oferecer,
2 - Eu não quero pagar pelo serviço e
3 - Eu ainda quero teimar que eu entendo mais do que ele,

A lógica se resume a um "Eu acho que o outro vale menos do que eu".

Então, se você é uma dessas pessoas, eu entendo você.

É uma ótima forma de se pensar: não só você se sente bem por se achar melhor que todo mundo, você evita de lembrar que não é um pedaço de carne mortal como qualquer outra pessoa.
Além disso, ainda tem a chance de alguém ter autoestima baixa o suficiente para concordar com a sua proposta de trabalho gratuito.

Realmente, você é especial. Exceto pelo fato de ser um escroto.

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A situação se resolveria se todo mundo soubesse duas coisas:

Primeiro, que nós somos protagonistas das nossas próprias vidas.
Ou seja, que tudo bem a gente se priorizar e cuidar mais do nosso quintal mesmo, e isso inclui dizer não para coisas que não vão nos trazer vantagem (e não, "mostrar o seu trabalho" não é vantagem).

Segundo, que os outros também são protagonistas das vidas deles.
Precisam pagar suas contas, tem seus desafios para superar e não podem ficar fazendo o que os outros pedem apenas por amor a alguma causa.

Cada um vivendo a sua vida com respeito aos limites dados pelo outro, poderíamos exercer mais a confiança: o outro só está tentando fazer o trabalho dele - e se ele diz que isso vale alguma coisa, veja só, pode ser que valha mesmo.

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Mas não vale a pena se exaltar.

Pra gente resolver essas diferenças com mais calma, sugiro uma prática que desenvolva a tolerância. Quando alguém lhe der um palpite sobre o seu trabalho, sugira um mantra:
"A vida do outro não me diz respeitooooohmmmmm, a vida do outro não me diz respeitoooooooohmmmm".

Pra repetir até atingir a iluminação.

Se não adiantar, dá até pra evoluir pra um:
"O serviço dos outros é pago em dinheirOOOOHMMMMM".

Se ainda assim a pessoa insistir, resta resolver a questão dentro de si mesmo. Na mesma hora, repita o seguinte mantra na frente da pessoa:
"VAI TOMAR NO CUUUUOHMMMMMM".

É tiro e queda.

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