Se você gosta de chocolate ao leite em vez de comer 99% amargo ou lamber a própria fruta do cacau, sua opinião sobre chocolate não conta.
Se o seu café não é 100% tipo exportação e mais denso que um barril de petróleo, você não entende nada de café.
Se não botar pimenta na comida até nascer uma hemorróida no seu olho esquerdo, você não é homem.
Ai de você se gostar de vinho suave.
Povo dá soco no ser humano que torce pra outro time de futebol. Povo briga pra ver se inverno é melhor que verão.
Povo briga pra ver quem é o mais justo e igualitário.
Depois foi a política que deixou as pessoas extremistas.
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Só sei que as vidas devem estar muito desorganizadas e vazias de afeto. Se não for por isso, por que alguém precisaria tanto se prender a uma opinião - por um assunto bobo que seja - pra se sentir seguro?
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Um dia eu vou inventar uma elitização pra alguma coisa bem específica. Sei lá, tomar Toddy com leite azedo.
A pessoa na cozinha, bem na dela, e eu chego:
"Nossa, cê tá tomando Toddy?"
"Sim, sim, é meu vício!"
"Mas COM LEITE?"
"É desnatado, né? Pelo menos eu tento cuidar..."
"Mas é azedo, né?"
"Como?"
Aí eu chego perto e cheiro a caneca da pessoa.
"Credo, você toma Toddy com leite fresco?"
A pessoa não entende, eu faço cara de nojo e pena:
"Cada doido com sua mania, né?"
Não dou um mês pra ter uma galera tomando Toddynho azedo de nariz empinado e se fazendo de entendida na internet.
Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso. A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...
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