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O avião

Adoro andar pelo centro da cidade. Ele sempre me lembra do que realmente importa.

Hoje foi assim.
Era quase meio dia e eu estava esperando pra atravessar uma rua bem movimentada. Estávamos em uns vinte, todos aguardando na calçada por uma notícia do semáforo de pedestres.

Ninguém olhava pra ninguém.
A vida da cidade é dura. Todos estão ocupados, todos estão apressados, todos tensos. Ninguém se conhece, ninguém parece se importar.

Subitamente, uma moça quebrou o marasmo do momento. Desesperada, apontou pro céu e gritou:
"MEU DEUS, OLHA O AVIÃO!"

Eu dei um pulo.
Geral olhou pro céu. Os executivos colocaram a pasta na cabeça para fazer de boné, as senhoras baixinhas esticaram o pescoço, todo mundo pareceu acordar da rotina, na esperança da sorte de ter um acidentezinho aéreo pra colorir o dia.

Os próximos segundos passaram como se fosse em câmera lenta.
Olhei, olhei, e não vi nada. Pescoço por pescoço foi virando de volta, seus donos frustrados por não conseguirem ver nada. Olhamos de volta pra moça que deu o grito, pra ver se ela explicava o que tinha acontecido.

Ela apontou o dedo pra todos nós e disse:
"VOOU NO SEU CALÇÃO!

Ninguém conseguiu reagir de imediato. Ela gritou de novo:
"AAAAAAAAAAAAAAAAAAH!", como quem diz "Peguei vocês!".

O povo ficou PUTO. Eu comecei a rir.
O semáforo abriu e cada um seguiu o seu caminho.

Já falei que eu adoro andar pelo centro da cidade?
Ele sempre me lembra do que realmente importa.

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