Pular para o conteúdo principal

Valide-me

Estava entrando na padaria e cruzei com uma moça que segurava um bebê de colo.
Não me aguentei - nunca me aguento - e fui fazer graça com a criança. Que menininha fofa!

Voltei pra fila, comprei meu sanduíche e estava a caminho de casa quando a mãe da criança me chamou:

"Eu vi que você gostou da minha filha, você não gostaria de validar ela?"

Fez todo o sentido pra mim na hora, já explico.
Ela continuou:

"É que ela é especial, é muito carente de atenção, precisa de muito amor e carinho, muita validação."

Fiquei muito honrado. Que felicidade, ser justo a pessoa que valida um bebê fofo daqueles!

E essa foi a primeira parte do sonho que eu tive essa noite.

--

A viagem do sonho vem de uma pergunta que eu faço frequentemente aos meus pacientes.
"Quem te validou?"

Ninguém entende de primeira, então eu explico.

Quando uma criança nasce, ela não é muita coisa. É só um enroladinho de carne com cocô e sentimentos.

Esse enroladinho precisa muito de uma outra pessoa, do lado de fora dela, que dê sentido àquela coisa toda.
Que veja o enroladinho e declare: "Tem uma pessoa aí dentro! Vou dar amor pra ela!"

Nem sempre são os pais que conseguem fazer esse papel. Já vi muita gente chorar bonito quando lembra da avó, ou da vizinha, ou do irmão, que deu o amor que, por falta de oportunidade ou de estoque, os pais não puderam dar.

A questão é: sem ser validado por alguém, você não estaria aqui.

--

A segunda parte do sonho foi mais esquisita.

Eu entrava no blog do bebê que eu ia validar - incrível como as crianças usam a tecnologia cada vez mais cedo nos dias de hoje - e via as avaliações que ela deixava de cada pessoa que já tinha tentado validar ela antes.

"FULANO DE TAL - 3 estrelas", com uma foto e uma descrição do sujeito.
Em uma pessoa, tinha carinho mas faltava elogio.
Na outra pessoa, tinha elogio mas faltava abraço.
Na outra, tinha tempo de qualidade mas faltavam palavras de amor.

Ninguém era bom o suficiente praquela criança.

Bebezinho crítico da porra.

--

O pior é que o bebê tinha razão.

Não há pessoa - por mais bem intencionada que seja - capaz de dar todo o carinho que outro ser humano necessita enquanto cresce e se descobre pela vida.

Sempre vai ficar uma parte da gente se sentindo invalidada.
Não vista. Não reconhecida. Não aceita.

Aí das duas uma:
A gente esconde essa parte, aceitando a derrota e jogando a toalha (ninguém nunca me achou bonito, eu sou uma desgraça estética mesmo, então por que me esforçar?), ou faz de tudo pra convencer o mundo que a gente tem valor, sim.

Se sentia inferior intelectualmente quando era criança?
Dá-se a engolir os livros. Tira nota boa, faz faculdade, um mestrado, dois... e ainda acha pouco.

--

A validação externa sempre vai ser insuficiente.
Uma das tarefas mais difíceis de quem se propõe a ser adulto é tornar-se a voz que dita o próprio valor.

Amadurece quem para de esperar que outra pessoa a veja e reconheça seu valor e aprende a validar a si mesmo - mesmo que não pareça haver motivos para tal.

Quem espera ter motivo pra gostar de si mesmo nunca vai encontrar.
Porque no fundo cada um de nós é como o bebê do sonho: só um enroladinho de carne, cocô e sentimentos, precisando de muito carinho e atenção, sedento de amor.

E, justamente por ser tão frágil, merecedor de tudo isso.

Amar a si mesmo quando ninguém nos ensinou a fazer isso é um esforço gigantesco - mas sempre válido.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...