Pular para o conteúdo principal

Tudo é por acaso


Sabe quando você aprende uma palavra nova, e de repente você começa a reparar em um monte de gente falando ela o tempo todo?
Ou quando alguém perto de você engravida e você começa a ver grávidas em todo lugar?

Estou assim com essa bendita frase.

Começou outro dia na sala de espera do médico.
Uma moça chegou completamente esbaforida, perguntando se ainda dava tempo de fazer a consulta. A secretária falou que, por coincidência, tinha um encaixe bem naquele momento.

"Ufa! Meu marido passou mal e eu precisei dar uma carona pra ele até o trabalho. Que bom que teve esse encaixe."

"Pra você ver", disse a secretária, "que nada é por acaso".

--

Fiquei encucado. Se alguma coisa ali era, era por acaso.

Por acaso, o marido dela comeu algo estragado. Por acaso, teve um desarranjo. Por acaso, ganhou uma carona da esposa e, não menos por acaso, alguém tinha desistido de sua consulta.

Por acaso, tudo deu certo.

A frase começou a me perseguir a partir desse dia, e é incrível a quantidade de vezes que alguém larga esse chavão por aí:

"Demorei uma hora a mais pra sair da consulta, mas quando passei na padaria tinha saído pão quentinho bem na hora! Nada é por acaso!"

"Fui sair de casa e encontrei adivinha quem! Minha vizinha! Nada é por acaso!"

"O acidente matou meus quatro filhos e meu gato, mas no mesmo dia eu vi uma flor bem bonita. Sinal de Deus! Nada é por acaso, né?"

--

Até eu comecei a usar a frase mais vezes. Conseguia encaixá-la em absolutamente qualquer situação:

"Moço, espera um pouquinho que eu tô sem troco", dizia a caixa do mercado.
"Tudo bem", eu respondia com ares de guia espiritual. "Nada é por acaso".
Ela concordava e sorria.

Um amigo levava um cano da namorada, eu consolava com "Nada é por acaso", uma prima pintava o cabelo e a cor saía errada, o consolo era o mesmo, o Uber comentava da chuva e eu filosofava: Nadépuracaso! Nadépuracaso!

E sempre, toda miserável vez, a outra pessoa concordava.

--

Ser humano é viver em um estado constante de quase-desespero. Se as coisas vão bem, dá pra levar tranquilo, mas se algo dá errado... A angústia se aproxima mais rápido que um parente pobre de um vencedor de loteria.

ALERTA GERAL! Meu marido passou mal! Não vai conseguir dirigir hoje! Vou perder a consulta no médico! Não vou conseguir outro horário!
TÁ TUDO DANDO ERRADO!
QUAL O SENTIDO DESSA MERDA DE VIDA?

Talvez a escalada não seja tão veloz assim pra todo mundo, mas a falta de sentido está sempre ali, à espreita, pronta pro ataque.

Por isso é tão gostoso quando aparece um clichê pra nos consolar e dizer "Ei, calma! Viu como uma coisinha encaixou no meio desse mundo de incoerências? Existe sentido nessa loucura! O universo não é um caos completo! Você vai ficar bem".

Ufa.
Nada é por acaso.

--

Pra lidar com a imprevisibilidade da vida, só com esse olhar generoso mesmo.

"Eu apanhei um monte na escola, mas olha como eu fiquei empático! Agora eu sou assistente social e tudo se encaixou!"

"Fui atropelado e quebrei sessenta e sete ossos, mas hoje eu sou um motorista muito mais cauteloso! Certamente salvo vidas a cada dia com minha excelente direção defensiva!"

Isso não quer dizer que as coisas tenham acontecido POR um motivo.

Quer dizer que encontramos um motivo pra elas. Que, no meio de um monte de sofrimento e tragédias que nos pegam de surpresa, a gente foi capaz de se organizar e encontrar algum sentido, apesar do sofrimento.

Não, nada é por acaso se a gente fizer questão de atochar sentido na bagunça que topar nosso caminho.

Ao mesmo tempo, tudo é por acaso - a não ser que a gente faça não ser.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...