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Os Jovens



É uma pena que a expressão fonética ao escrever seja tão limitada, porque eu não queria escrever sobre os jovens. Queria escrever sobre "OoOs JoOoOvEeNs", essa expressão tão solene e dita com a boca tão cheia por adultos preocupados.

Preocupados com quem? Ora, com OS JOVENS.

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Comecei a escutar essa expressão na igreja. De tempos em tempos, alguém do púlpito fazia um discurso específico para essa população tão em risco.

"Por que os jovens estão se afastando do Senhor?"
"Os perigos que os jovens enfrentam hoje"
"Jovens, sigam o caminho de Deus!"

Era como se os jovens não fossem pessoas de verdade, e sim seres impossíveis de entender e explicar, vulnerabilíssimos aos ataques de Satanás e prontos para explodir a qualquer momento.

--

E não é coisa só de igreja.
Quando acontece algum evento como o ataque em Suzano, ou qualquer situação em que um "jovem" age fora do esperado, meu telefone já toca com alguém pedindo entrevista:

"O que a psicologia tem a dizer sobre esses acontecimentos?"
"O que acontece com os jovens de hoje?"
"Como prevenir que os jovens façam isso novamente?"

O que me parece muito com o discurso do "Como é que faz pra ter jovem de volta na igreja?" que eu escutava lá atrás.

--

Minha ruga de fora a fora na testa vai tentar negar o que eu tô dizendo, mas eu já fui jovem um dia.
Jovem de tudo, de não ter barba, achar bonito roupa feia e fazer bagunça no ônibus.

Talvez você também já tenha sido - ou seja um agora, mas aí, o que você está fazendo na internet lendo texto em vez de sair por aí destruindo o futuro da humanidade? - e concorde comigo:
Jovem é praticamente como se fosse gente.

Os mesmos sentimentos, as mesmas reações, o mesmo raciocínio de um adulto.

Só, talvez, um pouco mais intenso, como um cachorro filhote que fica em casa e acaba roendo a parede por falta do que fazer.

Mas é a mesma coisa.

--

É difícil ver "os jovens" como similares a nós.
Eles falam outra língua, se interessam por coisas estranhas, não parecem se expressar direito, são imprevisíveis.

Mas tente observá-los antropologicamente, como quem vai ao zoológico e se identifica com os chimpanzés.
Eles tem as mesmas frustrações, as mesmas angústias e as mesmas dores que a gente, só que com
1) menos repertório pra lidar com isso,
2) mais hormônios fazendo TUDO PARECER MUITO IMPORTANTE MEU DEUS O MUNDO VAI ACABAR SE ISSO NÃO DER CERTO e
3) menos experiência em engolir o que sofrem, como nós aprendemos a fazer com o tempo.

Acontece que o mundo em que eles vivem é o mesmo do nosso.
A resposta para "Por que os jovens estão menos interessados na vida?", "Por que essa geração não dá valor para as coisas?", ou "Por que os jovens estão violentos?" é a mesma:
Porque os adultos também estão.

Nós, do lado de cá do cabelo branco, estamos tão violentos e desinteressados na vida quanto eles. Só fica mais fácil observar esses comportamentos quando os vemos em alguém que nos parece tão alheio e diferente de como nós nos vemos.

Os jovens são pessoas inseguras, lutando para ser aceitas, sofrendo com o absurdo em que o mundo está mergulhado e explodindo com tudo isso, iguaizinhos a nós.
Só que jovens.

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