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O que eu devo fazer?



A paciente estava aflita na minha frente, me pedindo por uma resposta:
"Eu não sei se você entende o que eu tô passando, você entende mesmo? Você já amou desse jeito?

A princípio fiquei em silêncio. A voz dela tremia:
"Eu sei que você não pode dar opinião, mas o que você acha?"

Meu coração pediu para responder.

"Francamente? Já estive em um lugar muito, muito parecido com o seu. Mais parecido do que você pensa. Escutar sua história chega a me assustar, porque alguns detalhes ecoam muito do que eu vivi. E, como alguém que já passou por uma história parecida com a sua, só posso dizer uma coisa: Ninguém, absolutamente ninguém, que esteja do lado de fora do seu coração tem a menor ideia do que você deve fazer."

--

Ela estava em um momento particularmente difícil de um relacionamento que, por si só, já não era fácil. Não sabia se deveria ceder ao medo de ficar sem a pessoa que tanto amava e tentar novamente ou se deveria enfrentar a angústia imensa que sentia e aceitar o fim.

Compartilhei um pouquinho mais da minha história.
"Eu fiquei vários anos nessa situação de idas e vindas, de abandono e de retornos dramáticos, de me sentir não assumido pela pessoa que estava ao meu lado, de me sentir ignorado apesar de tanto amar."

Parei para olhar a reação dela. É sempre um risco colocar a própria história em uma sessão de psicoterapia. Prossegui:
"Em um momento eu não aguentei mais e fui embora, simplesmente fui embora. Não consegui seguir tentando. Eu estava cansado, eu já tinha tentando demais e eu... eu simplesmente deixei ir."

Fiquei um pouco incomodado de estar falando tanto. Ela me ouviu atenta, desesperada, com a solidão típica de quem está em um relacionamento abusivo e não conta mais nada pra ninguém por medo do julgamento.
"Só me diz uma coisa, então... Se você foi embora, você conseguiu amar de novo?"

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Como lidei com a pergunta não vem ao caso, mas eu lembrei de todas as vezes que perguntei a mesma coisa para amigos que tinham passado por situações parecidas.

A resposta era quase sempre a mesma:
"Eu fiquei um tempo sozinha e depois conheci uma pessoa com quem o relacionamento é tão, tão melhor, que não tem comparação."

Foi essa esperança que me manteve firme no (longo) tempo que fiquei sozinho depois do fim do meu próprio relacionamento-cruz.

Tentei responder a pergunta da paciente para mim mesmo. Eu consegui amar de novo?

Eu amei novamente, sim. Com muita dor, sofrimento e com a disposição arrancada do meu coração praticamente à fórceps. Sem a mesma empolgação do passado, apesar de aproveitar muito.

A pessoa nova foi, sim, muito melhor do que a que ficou pra trás. É impressionante como um relacionamento fica muito mais fácil quando a outra pessoa, assim... QUER que o relacionamento aconteça.

Mas não, não foram só flores.

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Abandonar um relacionamento abusivo não é encontrar um oásis logo depois do fim. É sofrido e em muitos momentos a superação vem junto com violentas doses de arrependimento. É um processo duro, difícil e nem um pouco romântico.

Algumas das compatibilidades de inferno pessoal só se encontram nesse tipo de relacionamento, e só quem já esteve numa situação assim sabe como isso acende certos fogos e nos faz sentir particularmente acompanhados.

Sim, hoje eu consigo amar de um jeito mais leve, mas aquele sofrimento lá de trás deixa um restinho de... Saudades? Como se a pessoa que foi embora fosse um coçador de coluna que tivesse exatamente o comprimento ideal para coçar aquela parte difícil das costas.

E, por mais que hoje o coração esteja muito mais tranquilo e pleno, a coceira ainda fica ali, incomodando.
Ir embora não curou todas as minhas feridas, ainda que - tentando ver objetivamente - a vida esteja radicalmente, incomparavelmente, felizmente melhor do que antes.

Amei de novo? Sim. Mas nunca amei igual.
Ainda bem.

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Mas afinal, o que eu acho que aquela paciente em dúvida deveria fazer com o relacionamento dela?

Eu acho nada. Só ela pode saber.
Eu estarei aqui para suportar sua escolha.

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