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Notas de uma crise



Essa semana eu quebrei uma parede.
Também nessa semana, eu tive uma crise de ansiedade.

Assim, ó:
Minha cozinha é bem pequena, isolada do resto da casa por duas portas e uma parede que não faz o menor sentido de estar ali. A claustrofobia do lugar se embrenhou tanto na minha cabeça que eu passei o último ano gastando minha internet em vídeos de arquitetura, imaginando como seria aquele lugar com um pouquinho de luz natural.

Aí eu aproveitei que meu pai é o MacGyver em pessoa, capaz de consertar aparelhos eletrônicos, instalar a fiação elétrica de uma casa inteira, desenvolver geringonças para qualquer atividade necessária, e combinei com o meu pai que faríamos o serviço de pedreiro juntos.

Ele veio até Curitiba, medimos a parede, planejamos a melhor forma de fazer o serviço e começamos o quebra-quebra.

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Acontece que meu prédio (apelidado carinhosamente de "Asilo" pelo porteiro) é extremamente chato e inventa regras a todo momento. Já no dia da mudança eu bati boca com a síndica por ela obrigar os moços da entrega a carregarem uma cama por nove andares por motivos ser 4:06 e o horário limite para a usar o elevador pra móveis ser quatro horas da tarde.

É assim com tudo. Qualquer ruído após às 22 horas rende um toque no interfone. Já tivemos reclamação de excesso de barulho até em dia em que não tinha ninguém em casa.

É um clima de tensão constante, então eu fiz o possível pra tomar todas as precauções: marquei em dia de semana, esperei a manhã estar bem avançada pra começar, avisei a portaria que ia fazer barulho... e, mesmo assim, buguei.

Na hora da primeira marretada comecei a sentir a ansiedade subindo.

O telefone ia tocar. Alguém ia reclamar. A síndica ia aparecer na porta e me fazer carregar todos os móveis que eu tenho pela escada, mil vezes, só como castigo.

Alguém ia parar a obra e eu ia ficar com tudo pela metade, cheio de pó pela casa e tendo jogado o meu rico dinheirinho no lixo.

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Não fazia sentido estar ansioso. Eu sabia disso.

Na maior parte das vezes a pessoa ansiosa sabe que a sua ansiedade não tem a ver com a realidade, mostrar a realidade pra ela só vai deixar ela se sentindo incompetente por não conseguir segurar a própria onda diante dos fatos.

Foi aí que eu descobri mais uma capacidade do meu pai MacGyver: acalmar doido.
Ele foi, de pouquinho, demonstrando domínio sobre a situação, tentando me deixar tranquilo, oscilando momentos de mais e menos barulho, mostrando como faltava pouco pra acabar... E fomos prosseguindo.

Em algum ponto eu percebi que a obra já estava avançada demais pra alguém reclamar só naquele momento. Ufa, o barulho não era mais um problema.

Só que prédios caem, né?
Minha cabeça não quis desperdiçar toda a adrenalina que estava no sangue e arranjou outra paranoia pra me enlouquecer.


Caiu um prédio em Fortaleza outro dia. O menino tirou selfie no escombro. Deve ser terrível morrer em escombro. Já pensou se cai o prédio? E daí que a gente conferiu a planta mil vezes, e se cair e a gente morrer? E se não cair, quando é que eu vou morrer? Não quero morrer. Não quero que meu pai morra. Por que as pessoas morrem? Cadê o sentido dessa bosta toda? Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah.

Mas aí a parede já estava no chão, o barulho acabou e eu tinha uma tonelada de escombros pra juntar, da parede e de mim.

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É maravilhoso pra um psicólogo quando dá tilt na própria cabeça. A gente aproveita e revê um monte de conceitos.

Primeiro, que tentar se controlar nunca funciona numa situação dessas. O momento é de tensão extrema, e tentar controlar tudo só adiciona mais tensão. É mais fácil tentar ir de leve pelo lado do "ok, se der errado, o que pode acontecer de tão ruim?" e deixar a torneira do pessimismo correr um pouquinho até diminuir de fluxo.

Segundo, que falar do sentimento ajuda pra caramba. Eu falei mil vezes pro meu pai que estava ansioso e tentei não ter vergonha na hora de explicar o sentimento. Meu pai realmente mandou bem em não invalidar o que eu estava sentindo e em me tirar do controle da situação.

Terceiro, que está todo mundo sujeito. Não adianta teorizar sobre o sentimento, não adianta só estudar a respeito e achar que quem domina o assunto da saúde mental não vai ter suas questões. Na hora que é pra ter um rodeio de porco na sua cabeça, vai ter um rodeio de porco.

Quarto, que saber um pouquinho ajuda sim. Eu sabia que o que eu estava tendo era uma crise de ansiedade. Eu sabia que mesmo o pior dos dias acaba. Eu sabia que eu estava sentindo as coisas num nível muito mais intenso do que realmente estavam acontecendo. Não fez parar o sentimento, mas me ajudou a passar por ele.

Quinto, saber que eu ia escrever esse texto depois de tudo aquilo me aliviou muito. Ter um propósito pra merda que você está passando faz a merda deslizar muito mais fácil.

Sexto, se você vai desmanchar uma parede na sua casa, não faça isso justo no dia da sua terapia, porque aí seu horário vai ficar só pra semana seguinte e até lá a loucura vai estar toda diluída.

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De qualquer forma, estou contente com a minha cozinha nova. Agora ela tem uma janelinha e entra luz nela.

Graças ao trabalho conjunto (só dele) do meu pai e eu (basicamente só ele), construímos (ele) um ambiente muito mais legal lá pra casa.

Como é difícil conseguir deixar entrar luz nas coisas, mas como vale a pena!


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