Pular para o conteúdo principal

Religião Trabalho


Irmão, tenta imaginar que estamos numa igreja, e que tem uma tela de madeira entre a gente. Assume o papel de padre, por favor, que eu preciso confessar.

Era pleno dia de trabalho, pleno meio de semana, e... eu fui pra casa.
Ainda tinha bastante trabalho a ser feito, e eu disse "Estou com muita dor de cabeça" e fui embora.

Era só uma desculpa, eu só estava com a mesma dor de cabeça de todos os dias.

Não é meu hábito, eu juro. Mas naquele dia eu pequei. Fechei o computador e fui pra casa.
Não quis mais trabalhar.

--

Mas eu vim confessar pra você, irmão, porque não tive satisfação nenhuma com o meu pecado.

Cheguei em casa e abri o computador novamente. Tinha relatórios pra fazer, e eu os fiz com culpa e tédio e raiva de mim mesmo por ter saído do trabalho mais cedo.
"Ninguém vai chegar em lugar nenhum com uma ética profissional como essa", eu me chicoteava.

Enquanto trabalhava de casa, comi uma barra inteira de chocolate. Descobri que a comida funciona como um ótimo substituto para o descanso em horas como essa. Talvez por isso eu esteja cada vez mais cansado, gordo e com menos energia para o dia seguinte.

Terminei os relatórios e fui dormir. Não muito tempo depois o despertador iria tocar até que eu acordasse, atordoado.

--

Quando eu cometo um pecado desses, irmão, me pego pensando em como as coisas eram para o meu avô. Ele não pecava como eu peco.

Trabalhava pra caramba, fazendo calhas, era um mês por ano parado e nunca por férias. Pelo menos uma vez a cada doze meses ele caía de algum telhado e - certamente antes de se recuperar totalmente - ele já estava montado em algum telhado outra vez.
O dinheiro tinha que entrar.

Pra aguentar tanto trabalho, só com muita igreja pra implorar a Deus um pouquinho de descanso na vida eterna.

--

Não parecia emergência na época. Eu só percebi que a gente não tinha dinheiro quando, depois de adulto, alguém me olhou com cara de nojo quando eu diluí o leite em água antes de misturar o Nescafé.
"Não é assim que todo mundo faz?", eu me perguntei.

Hoje eu sou um afortunado, não me arrisco em telhados pra ganhar meu pão, sei a bênção que é trabalhar sentado e longe do sol.

Acontece que eu não tenho igreja. Quando chegou minha vez de encontrar Deus, o pacote de sentido já tinha acabado e não sobrou nenhum pra mim lá.  Entende, irmão, por que eu preciso de você fazendo as vezes de padre pra eu me confessar?

--

A minha igreja virou o trabalho. Inventei que era de lá que eu encontraria sentido, motivo, redenção.

Talvez a coisa fosse diferente quando o trabalho das pessoas fosse só tirar leite de vaca e cultivar milho. Trabalhou? Tem leite e arroz. Não trabalhou? Sem canjica pra você.

Agora meu trabalho não tem efeito concreto, por mais que eu tente não consigo arrancar milho da tela do PC.

Meu resultado vem por horas trabalhadas, e ai de mim se eu não encontrar satisfação nelas. Do meu trabalho sai o sustento e meu sentido.
Pelo menos deveria sair.

--

Mas o Deus Trabalho me amaldiçoou com o que eu queria, irmão.

Eu estou com as contas mais-do-que-pagas e muita coisa pra fazer. Se eu quisesse trabalhar o dobro, teria cliente para trabalhar o dobro. Sabe a honra que é isso? Sabe como é difícil dizer não depois de perceber que eu só diluo o leite na água por hábito, e não por precisar?

Acontece que o meu corpo não quer mais achar bonito trabalhar quinze horas por dia. Tem horas que ele já pede pra cair do telhado, como o meu avô, e eu estou tão decepcionado com o trabalho quanto eu estive com a igreja.

Me perdoe, padre-irmão. Eu saí mais cedo do trabalho.
Sem precisar, ingrato que eu sou, indiferente a tanta gente que imploraria pra ter um trabalho como o meu. Não apreciei a bênção que tive.

O pior, irmão, é que pretendo continuar pecando. Vou fugir do trabalho mais vezes, até que isso me traga prazer.

Se puder, já me dê uma penitência para os pecados futuros, irmão, porque eu ainda vou achar um jeito pra não sentir culpa com isso.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...