Meados de 2020. O coronavírus devastou o Brasil. Milhares de pessoas se dividem entre a necessidade de isolamento e a escassez de bens alimentícios.
Na mesa do jantar, a esposa aproxima-se do marido com cara de quem traz más notícias:
"Amor?"
"Sim?"
"O pior aconteceu."
Ninguém mais aguenta notícias ruins, ao mesmo tempo que todos parecem estar acostumados com elas.
"O pior? Pior do que a perda dos meus pais? Pior do que a escassez de comida?"
"Muito, muito pior. Acabou o papel higiênico."
Se alguma expressão consegue demonstrar negação, raiva, barganha, depressão e aceitação ao mesmo tempo, é a do marido nessa hora.
"Nós compramos oitocentos pacotes achando que seria suficiente, mas eu sabia que a nossa hora ia chegar. Não há mais o que fazer."
"Na verdade, amor, eu pensei em tomar um banhinho depois de cagar..."
"NÃO FALE UMA COISA DESSAS! Precisamos do papel! Precisamos da sensação física de algo raspando na nossa bunda!"
O silêncio impera por alguns segundos.
"O que nós fazemos agora, então?"
Mais silêncio.
"Não sei, amor. Quer lamber?"
A poucos passos dali, o gato sai correndo pela janela.
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Ainda não vi nenhuma boa justificativa para essa obsessão das pessoas em comprar papel higiênico, que foi a primeira coisa a faltar no supermercado depois do surto do corona.
Estocar álcool gel vá lá. Atum enlatado? Ok. Miojo também.
Mas um papel que só serve pra limpar a bunda? Esse estoque não faz sentido a não ser que esse papel carregue algo mais consigo além de bosta.
Eu acho que é o ritual.
A gente pode até ficar ilhado em casa, restringindo comida e tossindo sangue, mas quebrar o ritual de limpeza do entrecu? Jamais.
A bunda limpinha é o último fio de dignidade do ser humano num momento de crise.
Pode ver que quem tem duchinha higiênica em casa tem um ar um pouquinho superior, de quem atingiu o nirvana, maior até do que de quem é vegano, faz crossfit e não assiste BBB.
Mas pra quem ainda não tem duchinha, o papel higiênico é a única coisa que mantém essa merda toda funcionando.
A única sensação de segurança que eles tem na vida é olhar o papel rabiscado depois de passar na bunda e falar "Ainda tá sujo, vou dar mais uma demão", repetir o processo e encontrar a folha virgem de qualquer mácula.
O povo topa até morrer, mas morre usando Neve folha dupla.
Dignidade, sabe?
Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso. A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

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