Pular para o conteúdo principal

Quarentena, recaída e esbórnia


Toda mudança de hábito tem um inimigo oculto: a recaída.

Quem já tentou parar de beber, deixar de comer doce ou parar de arrancar casca de ferida sabe como funciona.

Você faz a escolha de mudar de hábito e faz um esforção pra não desistir. Aguenta um dia, aguenta dois, aguenta um mês e, numa distração de momento, se vê caído em uma piscina de catuaba, comendo toda a produção de páscoa da Garoto e arrancando cada casquinha de ferida do corpo usando um CD do Roupa Nova.

Faz parte: desistir do que se quer é parte do processo de querer. O difícil é, no dia seguinte à esbórnia, conseguir juntar forças para começar de novo.
Não do zero, só de novo. É uma diferença importante.

Se sentir um fracasso por ter recaído é uma ferramenta de sabotagem muito eficaz. É importante conseguir não focar no fracasso, mas na capacidade que teve de ter mudado de hábito por alguns dias.

Todo processo de mudança precisa levar em conta uma recaída ou outra sem julgar demais quando isso acontece.

--

A quarentena está mais ou menos na mesma fase.

Tenho percebido as pessoas bem cansadas de ficar em casa. Mesmo quem cuidou bastante até aqui já parece querer relaxar um pouco.

Eu, pelo menos, tô quase fazendo uma trouxa de roupas pra ir pedir carona na BR. Me leve pra onde quiser, só não pro meu quarto.

Vou confessar: já saí de casa algumas vezes sem precisar, pra comprar alguma coisa que, bem sinceramente, podia esperar até depois da quarentena, ou pra ver algum amigo de longe e de máscara...
Não alivia muito: é chegar em casa pra bater o peso na consciência.

Mas aí que tá: isso é natural.
Ficar em casa sem saber quando vai sair cansa. Quanto mais o resguardo durar, mais as pessoas vão querer começar a romper com as recomendações. Quanto mais rígida a contenção, mais isso vai acontecer.

Isso é do ser humano. Rigidez somada ao tempo dá cansaço, e cansaço é a força mais poderosa que o ser humano tem. Cansaço gera revolta.

É até perigoso citar isso num país em que tem gente pedindo a liberação geral de tudo, mas um pouco de flexibilidade nas medidas de prevenção é essencial pra que elas sejam cumpridas de verdade.

--

O desafio é acertar no ponto. Como permitir alguma liberdade sem deixar a orgia correr solta? Como criar um sistema de prevenção que tenha medidas de contenção efetivas levando em conta a necessidade das pessoas de não só saírem de casa, mas de sentir que estão transgredindo um pouquinho?

Como convencer as pessoas que tudo mudou e que é melhor ficar em casa quando a gente abre a janela e vê o mundo exatamente igual a antes, só que de máscara?

Como faz pra se divertir em home office no país da roda de samba e do surubão de Noronha?

Parece piada, mas esse tipo de coisa precisa ser levada a sério pra construir modelos de prevenção para um país. É o tipo de coisa que o Ministério da Saúde faria, se a gente tivesse um.

--

Enfim, tô escrevendo pra deixar meus parabéns a quem ainda tem conseguido se manter em casa com algum grau de sanidade, ainda mais quando os bares estão todos lotados e tanta gente parece não dar a mínima pra prevenir esse serial killer solto por aí.

Dá raiva, né? Pelo menos a gente pode imaginar eles pegando o vírus e morrendo. Faz bem pra alma, purifica o espírito, distrai o coração.

--

Lado positivo: os parabéns nos aniversários que eu tenho visto nesse último ano estão muito criativos:
"Te desejo imunidade alta!"
"Que esse ano seja bem curto!"
"Te desejo muita saúde, mas se não der, desejo que tenha vaga na UTI!"
"Bem vindo ao grupo de risco!"

Sem contar a musiquinha do "em tempos de corona/vamos prevenir/pega o álcool gel/e passa álcool aqui", que é a melhor coisa escrita em língua portuguesa desde o Fernando Pessoa.

Tá todo mundo cansado, mas pelo menos a gente ri.
Ri de nervoso, olhando pra parede, meio babando, mas ri.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...