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Frustrando e andando


Vocês não acham um absurdo que a vida não faça tudo o que a gente quer, do jeito que a gente quer e na hora que a gente quer? Poxa, vida, o que isso te custa?

Tô tentando direcionar minha produção para vídeos, já que mesmo as oito pessoas que costumam me seguir aqui no Facebook. Fácil, né? Crianças de seis meses de idade estão com canais no YouTube e toda a desenvoltura do mundo.

Beleza, lá vou eu: compro celular com câmera boa, falta coragem. Compro dois quilos de coragem de segunda com osso, mas falta microfone. Arranjo o microfone, falta luz.
Compro a luz, falta capacidade de editar.

Aprendo a editar mais ou menos... e começa uma seca filha dum peido na cidade.

Os maiores afetados vão ser os hospitais, sem água e lotados no meio da pandemia, mas minha criança mimada interior grita "E EU?".

Aqui estou eu, com luz, com microfone, com o texto pronto, mas com o cabelo igual ao da Marge Simpson e a impossibilidade de tomar um banho.

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O problema da frustração é que ela é cíclica. Ela cutuca e insiste, como um irmão mais novo tentando te fazer bater nele pra depois ir reclamar com a mãe.

Eu sei porque eu era esse irmão mais novo, já iniciei a vida na profissão frustração.

Já estou começando a ceder e achar que, com algumas coisas, não vale a pena insistir.

Como eu sou um vaidoso inseguro (a culpa é da sociedade, tá?), eu tô sempre querendo arrumar alguma coisinha na minha aparência, e não dou sorte.

Começo musculação, me empolgo e... surge uma lesão. Insisto em treinar com dor, piora a lesão. Cedo, paro, trato a lesão. Começo outro esporte, que force menos, até... que surge outra lesão. Enxágue e repita várias vezes.

Comprei uma máquina de remo e ela quebrou inteira (curioso, porque em nenhum lugar do manual falava que ela poderia quebrar ao ser usada como guarda-roupa).

Aí esse ano eu fiquei puto e resolvi investir uma grana e voltar a fazer natação. Estava indo todo dia, me dedicando, perdendo peso - e veio o coronavírus.

Foi mal, pessoal, eu que não escutei do universo que não é pra eu ficar com o corpo que eu quero, e de quebra provoquei a pandemia.

Vai morrer meio mundo e falir a academia porque eu teimei em perder peso.
Como é gostoso ser narcisista.

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Foi assim com os óculos também: tentei usar lentes de contato, os olhos não aceitaram. Esperei anos pra fazer a cirurgia, topei com um problema na córnea que não permite que ela aconteça. Vai ter que ser de óculos mesmo.

Outra coisa: a acne. Já peregrinei dermatologistas e nenhum resolve minha pele sempre avermelhada e com alguma coisa esperando pra explodir pus pra todo lado. Ninguém resolveu nada. A cara que eu tenho pra enfrentar a vida é essa.

Por isso que talvez seja tão importante essa ideia de aceitação.
Enquanto eu não me aceitar meio barrigudo, espinhento e de óculos, eu não vou conseguir fazer nada do que eu queria.

Ou eu aceito a humildização obrigatória que a vida me impõe e aceito meu Paulo Francis interior, ou vou ficar parado pra sempre.

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Pelo menos a vida tem alguma inteligência no meio de tudo isso. Se eu já sou ensimesmado, narcisista e metido com essas características, imagina se eu fosse um colírio da Capricho? Até o menino sedutor do TikTok ia ter vergonha alheia de mim.

O negócio é engolir o orgulho e ir em frente.

Vou tentar gravar um vídeo sem tomar banho mesmo, com as remelas e o cabelo da Marge. Quando eu publicar, vocês me avisam se deu pra sentir o cheiro?

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