Pular para o conteúdo principal

Oi



Nada me irrita mais do que gente que puxa conversa com um "Oi" e mais nada, como se o WhatsApp fosse um walkie-talkie e você precisasse ouvir a outra pessoa dizer "Câmbio" pra poder continuar falando. A pessoa é incapaz de entender o conceito de comunicação assíncrona.

"Oi", diz o ser cuja existência não passa de um desperdício de álcool gel.

É muita maldade deixar pra outra pessoa a responsabilidade de começar a conversa, quando pra começo de conversa a pessoa nem queria começar a conversa.

Quando eu posso, ignoro.
Quando tô muito paciente, mando um "Oi! Tudo bom?", mas já com ódio na alma.

--

"Tudo", responde a pessoa, como se fosse uma impressora HP com o cartucho de tinta acabando depois de imprimir duas folhas e meia. Nunca "tudo" quis dizer tão pouco.

É uma queda de braço, e a pessoa quer mostrar que manda em você. Ela quer controlar sua resposta, ela quer matar sua liberdade, ela quer você como um cachorrinho respondendo cada mensagem de charminho que ela mandar.

É hora de tomar o poder. A graça é não responder nada e deixar a pessoa ali, presa nas próprias palavras, obrigada a se calar pra sempre ou a ter um mínimo de iniciativa da porra de vida vazia dela.

Mas digamos que você tenha, por algum motivo que nem o Átila Iamarino consegue explicar, vontade de insistir. Talvez seja por tesão na pessoa (mas quem teria tesão numa pessoa que não sabe conversar no whats?), por achar que ela pode te arranjar um emprego ou por pura falta do que fazer, mas você manda:
"Posso ajudar?"

Nessa hora a guerra acabou. Você perdeu. A pessoa vai pedir alguma coisa.

Pode ter certeza, esse tipo de conversa nunca é pra se oferecer pra pagar a conta de luz desse mês, nem pra te mostrar fotos do gatinho que ela adotou. A pessoa que fala em conta-gotas no WhatsApp sempre vai pedir um favor.

--

Às vezes a pessoa só está triste e quer fazer a misteriosa do WhatsApp:
"Eu tô bem..........................." - essa pessoa nunca sabe usar reticências - "tudo indo........"

Pior ainda quando ela quer fingir que não é assim, e te faz quatorze perguntas sobre a sua vida, mas você sabe que ela só está cumprindo protocolo pra te contar alguma coisa sobre ela

"Me conta, amigo..." - ela sempre vai te chamar de amigo, porque ela sabe que você não é amiga dela e quer te convencer a ser - "...como tá o trabalho?"

Dá vontade de responder:
"Eu nunca te falei do meu trabalho na minha vida, seu Pedro Bial do inferno, meu trabalho é sair dessa conversa logo."

Normalmente eu respondo um "Tá bem" e fica por aí, a não ser que eu realmente precise contar alguma coisa, tipo:
"Tá foda, minha impressora da HP acabou o cartucho depois de duas páginas e meia, essa desgraça"

Mas a pessoa não quer ouvir. O objetivo dela é desabafar ou pedir favor, às vezes os dois ao mesmo tempo.

--

Nessa hora, ela esquece que é uma pessoa de poucas palavras e vira uma profissional da voz. Pode esperar, lá vem três minutos e cinquenta e nove de conversa com a voz mais entediada e sussurrada do mundo:

"Você não vai acreditar..." - ela suspira oito vezes - "eu peguei o celular do Valdemar"

Nisso ela se perde um pouco:
"É... então... eu peguei o celular do Valdemar, né? Daí..."

E esse é só o primeiro áudio. Ela manda mais outro:
"Aí eu...", e ela respira o ciclo de vida completo de uma mosca comum, "eu vi um monte de conversas dele com outras pessoas, o meu coração tá doendo demais..."

Você se compadece:
"Poxa, que merda. Mas você vai conseguir coisa melhor, você não precisa disso... Você vai ficar bem solteira!"
Mas não era isso.

"Quem disse que eu vou ficar solteira? Eu quero é sua ajuda pra imprimir as conversas, eu vou dar na cara dele com os prints, ele vai ter que me pedir perdão!"

Sinto muito, pessoa, não posso ajudar dessa vez.
O cartucho da minha impressora HP acabou.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...