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Amar é não jogar pela janela



Estou aqui na minha nona xícara de café do dia - normalmente nesse horário eu estaria só na sexta - e compreendendo o amor como nunca antes.

Veja, eu sou ensimesmado o suficiente pra ter um gato. Gato é um bicho bom pra gente convencida porque você pega ele no colo a força, tenta abraçar, ele grita, enfia a unha na sua cara e sai correndo e você ainda diz "Ele me ama".

A gente se entende bem porque enfiar a unha na cara e sair gritando é a minha linguagem do amor.

Enfim, estou tomando ainda mais café hoje porque no eu consegui dormir, se muito, uma hora. Foi o tempo de piscar o olho, sonhar que eu jogava canastra com a Taylor Swift e escutar o despertador.

--

"Por que você não conseguiu dormir?", ninguém me pergunta, e eu respondo: essa noite o gato enlouqueceu. Semana passada passou um ciclone na cidade, e nessa passou o gato.

Não ficou um enfeite dessa casa no lugar, de meia em meia hora era alguma coisa quebrando. Ele sempre corre e faz fiasco, com o espírito de Saci Pererê que lhe é natural, mas essa noite foi extra.

Do banheiro à sala, da cozinha ao corredor, não teve um cômodo da casa que ele não tenha depredado de alguma forma.

Não consigo entender o motivo. Será que é lua cheia? Vou jogar no Google.

Espera.

É, é lua cheia. Dizem que isso deixa o bicho mais espevitado.
Só que é uma lua só no mundo, pra ele e pra mim, e os dois espevitados ao mesmo tempo não iam prestar.

Lá pela décima vez que eu levantei, peguei o gato no colo e senti muita, muita raiva. O instinto pedia pra bater, pra morder, pra dar banho, pra fazer alguma coisa que gatos odeiem. Me segurei.

Lembrei de uma professora de desenvolvimento infantil que explicava que há dois tipos de pais: os que tem vontade de jogar os filhos pela janela e os que jogam.
Pensei nessa frase, respirei fundo, e voltei pra cama.

Amar é não jogar pela janela.
Como isso é fácil. Como é difícil.

--

Estou entendendo o amor e, de quebra, entendo meu pai, que deixava um CD do Calypso em casa com a finalidade única de tocar bem alto no domingo de manhã e me acordar. Não era interesse em ter os filhos acordados, era vingança.

Aí hoje, enquanto eu trabalho, estou cutucando o gato a cada minuto que posso. Eu faço barulho, passo a mão nele, falo CADÊ NENÊ DO PAPAI e vejo a cara de ódio do bichano.

Não vou deixar esse mascote do inferno descansar até chegar a noite.


A Taylor Swift que me aguarde pra jogar baralho a noite inteira. Essa noite ele dorme e eu também.

Amar também é botar limite, porque se eu ficar mais uma noite sem dormir, eu vou sim jogar alguém pela janela.


Muito possivelmente eu mesmo.

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