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Como romper padrões de relacionamento?


Padrões ruins de relacionamento são um clichê delicioso. Todo mundo já percebeu que algumas coisas se repetem de um relacionamento pro outro, isso é um papo ótimo pra bater na mesa do bar.

A pergunta difícil é a que vem depois de perceber o padrão. Algo como "Eu sei que eu sempre procuro pessoas que...
( ) me botam pra baixo
( ) são emocionalmente distantes
( ) me lembram minha mãe
( ) vestem minhas calcinhas quando eu saio de casa
( ) todas as anteriores
... mas o que eu faço com isso?"

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Talvez seja o caso de transformar o problema numa regra de três:

Fator 1: Algumas pessoas me despertam interesse naturalmente. A presença delas me gera algum grau de conforto e familiaridade, e é com elas que eu tendo a me relacionar.

Fator 2: Por outro lado, esses relacionamentos tendem a gerar dor.

Assim, é possível deduzir que o mesmo sentimento por trás da sensação de familiaridade e conforto imediato que alguém gera é o que, de alguma forma inconsciente, escolhe a pessoa capaz de gerar uma dor que também é familiar.

Logo, pra separar a dor dos relacionamentos, pode ser importante explorar o território do desconforto. Se relacionar com gente que não seja instantaneamente familiar, que não pareça o encaixe ideal e que seja esquisita de alguma forma.

Alguém que nos deseje - mas que não correspondemos de imediato.

Se não for assim que se calcula regra de três, me perdoem. Eu reprovei duas vezes em matemática no ensino médio.

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Num primeiro momento o sentimento é de inferioridade - "Como eu posso aceitar uma pessoa que não me desperta paixão? Eu já passei tanto tempo aceitando coisas ruins! Não é o caso de esperar alguém que me complete totalmente?"

Mas pode ser bem esse o endereço do padrão de relacionamento que machuca: ele mora na ideia da completude.

Talvez seja desse pensamento que o Cazuza tenha tirado o petardo certeiro: "Pra quem não sabe amar / fica esperando alguém que caiba no seu sonho".
Quem vem dos sonhos dificilmente cabe na vida real.

Aceitar, de cara, se relacionar com alguém que não nos gera a ideia de felicidade eterna pode ser um bom atalho para desviar das ilusões que podem sabotar um relacionamento desde o início.

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Óbvio que não há garantias. Dizem que conhecer alguém profundamente demora o período de comer um quilo de sal com a pessoa, e mesmo com a minha pressão alta isso leva um bom tempo.

Ainda assim, suportar o desconforto de arriscar uma relação com alguém fora do seu padrão emocional permite o surgimento de outros fatores que podem surpreender bastante: um acolhimento inédito, uma compreensão mais profunda das suas feridas emocionais, a diminuição do conflito.

Coisas que eu não são possíveis pra quem se deixa levar pelas primeiras - ou décimas - impressões.

Como aquilo que nos irrita no outro diz muito sobre o nosso próprio comportamento, uma pessoa que, num primeiro momento, parece irritante e esquisita pode ser justamente a pessoa que ama da mesma forma que nós.

Aprendendo - com calma e vontade - a amar a outra pessoa, ganha-se um bônus valiosíssimo: amar a si mesmo também. Se esse processo acontece dos dois lados, coisas muito bonitas podem acontecer.

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Essa dinâmica nunca deixa de surpreender.
Eu ainda me espanto com como meu relacionamento - construído nessa lógica de "quando um coração cansado de sofrer encontra um coração também cansado de sofrer" - oscila entre momentos em que eu me sinto profundamente irritado, sentindo falta do sentimento imediato de encontro de almas, e momentos em que eu me sinto compreendido como nunca antes na vida.

Um exemplo ridículo de bobo: eu passei a vida toda virando a ponta das facas do escorredor de louças pra baixo, porque vai que alguém tropeça e cai de olho?

Era um esforço solitário. Toda vez que outra pessoa lavava a louça as facas voltavam a descansar com a ponta pra cima, como um ator pornô que relaxa entre um take e outro.

Aí semana passada o meu namorado veio aqui, olhou as facas no escorredor e disse "Nossa, porque as pontas estão pra cima? E se alguém cai com o olho nelas?".

Naquele momento eu senti que o esforço todo pra fazer o relacionamento acontecer valeu a pena. Nunca me senti tão validado na minha vida.

Até esqueci que as facas estavam daquele jeito porque eu planejava esfaquear ele.

É evolução que chama, né?

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