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Uma menina



Aos seis anos de idade, uma criança começa a desenvolver a capacidade de contar histórias complexas sobre si. Ela já conta histórias antes, mas é mais ou menos nessa idade em que ela começa a inserir-se nos acontecimentos que conta, a relatar suas histórias de vida como acontecimentos dignos de valor e, ao fazer isso, se percebe como um ser merecedor de uma vida digna de virar história.
Aos seis anos, uma menina estuprada foi forçada a guardar silêncio, e foi roubada da importância e prazer de falar sobre si.

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Por volta dos sete ou oito anos de idade, uma criança passa a desenvolver uma coordenação motora fina que a permita tomar posse do seu corpo que se desenvolve a passos largos. Ela aprende, aos poucos, a dominar um lápis, a pular amarelinha, a usufruir da alegria de ter um corpo só para si.

Aos sete anos de idade, uma menina estuprada foi roubada da chance de se apropriar do próprio corpo.

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Aos nove anos de idade, uma criança já passou vários anos observando o cuidado que recebe do seu ambiente e provavelmente já brincou bastante com isso. Essa é a idade em que esses hábitos passam para a prática. O brincar de tomar banho passa a ser o tomar banho efetivamente por conta própria. O asseio que aprendeu a receber passa a ser o asseio que ela tem consigo mesma.

Aos nove anos de idade, uma menina estuprada não teve a chance de exercer carinhos consigo mesma porque, em vez de carinho, recebeu violência.

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Aos dez anos de idade, uma criança começa a dar passos em direção à adolescência e já se vê, mais do que antes, como dona de si. É o momento em que a criança se vê defensora dos próprios interesses e começam a exigir um lugar no mundo que corresponda àquilo que ela deseja para si.

Aos dez anos de idade, uma menina estuprada foi pressionada por grupos religiosos a ter um filho que lhe roubaria ainda mais o direito de se ver como um ser humano independente e capaz de tomar suas próprias decisões na vida.

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O abuso infantil - seja sexual, físico ou emocional - tem garras extremamente profundas porque não é apenas um ato violento para com a criança que já é. Ele ecoa na pessoa que está por vir.

Ao reduzir a violência ao ato, dizemos para essa criança que toda a profundidade do que ela sentiu não importa. Dizemos que ela deve relevar tudo aquilo que ela teve arrancado de si e atravancamos seu caminho à pessoa que ela tem o potencial de se tornar.

Mesmo tremendo de ódio dessa história, só consigo desejar que essa menina seja muito, muito, muito ouvida.

Que ela tenha a segurança e o espaço suficientes para que ela aprenda, ainda que mais tarde do que poderia, que ela tem direito a segurança e espaço para si.

Que ela possa sentir tudo aquilo que ela sente. Que ela possa dizer da raiva que tem ao ter tanto roubado de si. Que ela possa reclamar seu direito ao próprio corpo. Que ela possa, apesar das marcas tão profundas que um abuso deixa, se ver como muito mais do que a menina que foi violada pelo tio. Que ela possa se ver como apenas uma menina.

E que essa revolta tão profunda que bate em tantos de nós seja capaz de mobilizar algo no mundo real a ponto de proteger essa menina - e tantas outras que passam pela mesma situação e seguem invisíveis - de tanta perversidade que as ronda.

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