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Quatro olhos menos dois




Eu comecei a usar óculos com oito anos de idade.
Lembro bem de sair da ótica olhando ao redor e descobrir um mundo novo, em que a copa das árvores era feita de folhas discerníveis e não de um borrão verde. Lembro de olhar pro rosto da minha vó e falar "Nossa, como a senhora é velha!", inocente de como essas observações doem.

A lua de mel com os óculos durou pouco.
Passei a adolescência usando lentes de contato pra fingir que eu não era nerd - além disso, os óculos não combinavam com a minha franja emo. 

Deu ruim: meus olhos começaram a ficar irritados e vermelhos, a ponto de tanta gente me parar na rua pra tentar comprar maconha que foi muita burrice da minha parte não ter começado a vender.

Eu estava com fungos nos olhos e isso era, aparentemente, uma coisa ruim. Voltei pros óculos.

--

Minha esperança, então, passou a ser fazer cirurgia nos olhos. 

Primeiro eu não pude por causa da idade, e a parada dos fungos também não ajudou muito.

Esperei. Cheguei a marcar a cirurgia só pra receber um telefonema do médico na noite anterior dizendo "Olha, eu revisei seus exames e acabei cagando nas calças, decidi cancelar seu procedimento".

Não foi tão frustrante quanto o meu último médico, que me examinou e disse "Impossível! Essa sua córnea está muito fragilizada, não vai ser possível operar. Se acostume com os óculos, e venha no meu consultório em três meses, porque sua córnea corre o risco de piorar."

Uma coisa era não poder operar agora, mas nunca mais? Ter que ficar com essa máquina de bullying na cara pra sempre ia ser o meu destino? Pior, eu tava com a córnea fodida e ia precisar cuidar dela pra sempre?

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Com a recomendação imperativa de voltar em três meses, fui embora e voltei... em um ano e meio. Ops. Quem não faz exame não tá doente, não é o que dizem?

O médico olhou meus exames e disse "Perfeito, vamos marcar para a próxima terça-feira?".

Eu olhei pra ele como o Ricardo Salles olha pra uma árvore.
Agora, depois de eu ter vivido o luto, eu posso operar? Agora que eu investi em óculos diferentes, agora que eu até gosto da minha cara com óculos?

Vai ser possível justo agora que eu não faço mais questão?

--

Parece regra: se você quer muito alguma coisa, não precise dela.

Os exemplos são tantos:
A pessoa desiste de encontrar um relacionamento e, só então, a pessoa certa cruza o seu caminho.
Ou desiste da carreira dos sonhos e recebe uma oportunidade incrível.
Ou sofre o luto da infertilidade, adota um filho e - como que por mágica - consegue engravidar.

Chega a ser bonito: a gente só conquista aquilo que consegue viver sem. Primeiro se conquista a resiliência, depois a recompensa.

Quer dizer, é bonito mesmo? Ou eu só quero que seja pra ver o negócio de um jeito menos frustrante?

--

Mas não pensem que eu vou me dar por satisfeito com essa liçãozinha de moral, não. Deve ter alguma coisa a mais por vir.

Eu me recuso a ser otimista.

Já tô achando que a cirurgia não correu cem por cento, que a visão não tá tudo isso, que em algum momento o meu olho vai ser atingido por um soco perdido e eu vou precisar operar de novo, alguma coisa assim...

"Ah, então você acha que é impossível que as coisas dêem certo e que você simplesmente tenha direito a ser feliz?"
Exatamente!

Desisti de achar que tudo vai ficar bem. Quem sabe, justamente por isso, tudo fique.
Hei de ver com esses olhos pelados que acabei de conquistar.

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