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História de uma cadela


Quando eu consegui uma bolsa pra fazer faculdade e me mudei pra Curitiba, trouxe na mala um bom tanto de preocupação. Minha mãe não estava muito bem de saúde, andava meio abatida, meio triste...

Não que eu achasse que a minha ausência fosse ser catastrófica, mas eu tinha medo que ela ficasse solitária demais.

Sorte minha que a vida é feita de embarques e desembarques: ela não ficou sozinha por muito tempo.

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Poucas semanas depois de eu vir pra cá, minha mãe recebeu uma visita inesperada. Uma cachorrinha filhote, miúda de todos os jeitos, subiu dois lances compridos de escada na escola em a minha mãe dava aula.

Não sei como conseguiu, porque mesmo depois de crescida as patas dela eram curtinhas como as de uma mentira.

Minha mãe pensou que era um cachorro com dono e carregou o bicho escada abaixo. Não adiantou. A cachorra subiu as escadas de novo, e de novo, e de novo, se recusando a ser ignorada.

Engraçado como aquilo que precisa chegar na nossa vida insiste até que a gente deixe entrar.

Depois de um tempo tentando encontrar um dono para a cachorrinha, minha mãe se rendeu e aceitou que esse posto já era dela.

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Depois da resistência inicial, a cachorra foi elevada ao posto de membro da família e, como 95% das vira-latas que encontram um lar no Brasil, ganhou o nome de Lilica.

Quando eu voltei pra visitar meus pais, eu me deixei conquistar rapidinho pela nova integrante da casa. Era como se a Lilica tivesse recebido meu recado de cuidar da minha mãe. Parceiríssima, ficava por horas ao lado da cama dela, quietinha, cuidando em silêncio.

Eu era muito grato por isso - e também pelo recado que ela deixou: prestando atenção, ninguém fica abandonado por muito tempo. Algum coração afim aparece pra fazer companhia.

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(Quem não quiser ficar triste para de ler aqui)

Mais de uma década depois, acabei de receber uma mensagem do meu pai dizendo que a Lilica faleceu essa noite. Tadinha.

Ela ficou bem mal por uma semana, foi internada e não aguentou. Como o coração da gente parte quando uma coisinha tão inocente vai embora, né?

Só que seria muito cruel ficar apenas triste pela partida dela e esquecer da lição que a cachorrinha deixou: nenhum lugar de amor fica desocupado. Logo outro carinho há de insistir em subir as escadas até se fazer morar no coração quentinho que a minha mãe tem.

Mesmo com uma partida triste dessas, a vida continua tanto, e com tanta força, que chega a ser bonita e a quase fazer sentido. Fica um tanto de tristeza e bastante gratidão.

Lilica, obrigado por cuidar da nossa mãe. Você foi uma boa garota.

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