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Por um ano menos cínico




Acho fascinante aquele tipo de gente que declara coisas óbvias achando a coisa mais inteligente do mundo. O prato que essas pessoas mais tem servido ultimamente é: 

"Pessoal, vocês sabem que não fica tudo magicamente resolvido na virada do ano, né? A pandemia não vai acabar magicamente no dia 31 de dezembro de 2020, nem adianta se animar."

Obrigado pela luz, sol da minha vida.

Mas, ao contrário do que esse pessoal parece imaginar, a maior parte das pessoas no planeta já presenciou outro reveillón na vida. Não é novidade nenhuma, nós sabemos que a esperança que esse dia passa é de mentirinha.

A cueca amarela e o pular ondinhas é só uma maneira de fingir ter controle sobre as coisas, e quase sempre esse faz-de-conta é bem consciente.

(Pensando bem, lá pelas onze e cinquenta da noite de 31 de dezembro de 2019, eu tive uma dor de barriga terrível e passei a virada pra 2020 suando frio no banheiro. Supersticiosamente falando, pode ser uma boa evitar que isso se repita... )

(Sim, pessoal, a culpa foi minha. Perdão.)

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Vi uma entrevista com o Paul McCartney contando um sonho recorrente que ele tem. No sonho, ele está no palco com os outros integrantes dos Beatles, prestes a iniciar um show, e ao pegar seu baixo pra começar a tocar, percebe que o instrumento está todo coberto de fita adesiva. Ele tenta limpar o instrumento, mas a fita é grudenta demais, e ele, angustiado, não consegue tocar. 

O grande medo do ser humano (e até dos que não são humanos, feito o Paul) é de não dar conta daquilo que se propôs, é querer fazer bonito e acabar fazendo feio.

E é quando fica-se preso nesse medo que a gente começa a ficar cínico, torcendo o nariz pra esperança e querendo cortar o embalo de qualquer pessoa que comece se empolgar.
 
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Mas pôxa vida, qual é a maldade de ter esperança? Esse ano foi difícil e vai acabar. As dificuldades que sobreviverem ao ano vão acabar também.

Duvida? A era mesozoica durou duzentos milhões de anos e acabou! Com um asteróide atingindo a Terra? Sim, mas acabou.
Até a reprise de Fina Estampa, que parecia interminável, acabou! 

O que é bom passa rápido mas até que esse ano passou voando também, né? E como é bom ter uma marcação no calendário que nos permita lembrar que as coisas, sim, acabam.
Ufa.

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Pois eu vou me comprometer a não ser cínico. Vou, no meio da merda em que estamos enfiados, ousar ter esperança pro ano que vem.

Eu desejo que a pandemia acabe e que as pessoas possam viajar, dar abraços e passar tempo com quem amam.

Desejo que o nosso maior medo ao encontrar estranhos seja o de pegar gonorreia.

Desejo pra 2021 que os pratos transbordem, por mais que já pareça otimismo querer que eles tenham o mínimo suficiente.

Desejo que o Paul McCartney consiga tirar a fita adesiva do contrabaixo, o John e o George do túmulo e que façam turnê pelo mundo.

Desejo que as bençãos caiam do céu como uma guilhotina no pescoço de  c e r t a s  p e s s o a s.

E desejo, do fundo do meu coração, que todo o cinismo vá embora. Foi difícil não ser contaminado por ele esse ano.

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