Pular para o conteúdo principal

Coisas boas acontecem

 




Eu brinco com o meu terapeuta que a vida me transformou numa máquina de lidar com frustração. 
É o meu maior talento: me joga um problema que em milésimos de segundo eu sou capaz de dizer "tá, acontece, não vou morrer por isso" e seguir em frente.

Por um lado, isso é ótimo. Me economiza um bom tanto de sofrimento. Por outro, acaba me deixando meio cínico, preparado pra levar a próxima bolada na cara, e cinismo nunca é legal.

Por isso que essa semana, bem no meu aniversário, eu aconteceu um fenômeno que eu esqueci que podia existir: uma surpresa boa!?!?

--

Um roteiro que eu escrevi dois anos atrás, inscrito em um edital por insistência e esforço de um colega, foi aprovado e eu passei a última semana co-dirigindo um curta-metragem.

Conta isso pra mim aos dezesseis anos, quando eu brincava de escrever roteiro, pra ver se eu acreditaria. Conta isso pra mim aos vinte e dois anos, quando eu me conformei que isso nunca ia acontecer e eu decidi focar na psicologia, pra ver se eu acreditaria.

Quer dizer, talvez eu acreditasse, eu ainda não era tão cínico. 

Mas foi bom receber o lembrete agora: Coisas boas acontecem. Coisas extraordinariamente boas acontecem.

--

Coisas ruins também acontecem, concedo isso, a máquina de lidar com frustração continua a todo vapor. Mas num ano que eu perdi tanta coisa, em que eu briguei tanto com a minha saúde, em que tantas pessoas importantes foram embora, um sonho antigo se realizou. E isso foi suficiente.

Minha fé oscila bastante, mas quando eu me permito pedir alguma coisa ao universo o pedido é sempre o mesmo: que boas pessoas estejam ao meu lado, que as pessoas perto de mim me ajudem a revelar meu melhor e que eu faça o mesmo por elas.

E quanta gente boa esteve ao meu redor nesse projeto! Não vou listar os nomes porque sou ingra--- porque seria muita gente e eu fatalmente esqueceria alguns nomes importantes, mas vocês sabem quem são.

De qualquer forma, segue meu agradecimento a todos: aos muitos nomes que participaram do filme e seguraram minha mão enquanto eu não fazia ideia do que estava acontecendo; e a todas as pessoas que me apóiam e revelam o melhor de mim no bom e sempre novo cotidiano.

Logo, logo, eu apareço com mais notícias do Bimbinho - personagem e título do filme - por aqui. 
E que coisas boas sigam acontecendo!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...