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Só o licor



Poucas notícias me trouxeram tanto deleite nos últimos dias quanto essa de que a atriz Fernanda Souza, ex-Chiquititas e ex-Mirna do Chiqueiro, está namorando outra mulher.

Primeiro, porque eu sempre fico contente quando alguém sai do armário. Vinte anos atrás isso dava capa de revista e decretava o fim da carreira da pessoa maluco-corajosa o suficiente pra fazer isso. É legal ver que os tempos mudaram.

Segundo, porque tem gente reprimida dando chilique, e chilique é o esporte que eu mais gosto de assistir. Principalmente quando os argumentos são catastróficos: 

“É o fim da raça humana”, decreta algum crente.

Como se bastasse uma mínima possibilidade de não gostar do sexo oposto pra abrir as porteiras e o mundo todo virar gay. Fica tranquilo, querido, não é porque você faz esforço pra gostar de mulher que todo mundo faz. Sempre haverá de existir algum homem excêntrico o suficiente pra gostar de mulher e alguma mulher doida o suficiente pra gostar de homem. Se não tiver, ainda dá pra apelar pra inseminação artificial, já que você é tão apegado nessa história de não extinguir a humanidade.

“Deus há de vir logo pra acabar com tudo isso!”, diz a pessoa, como se a Rute da Bíblia não tivesse largado toda a sua vida pra ficar uma amiga muito muito muito íntima da Noemi, de usar anel de côco e tudo; ou como se Deus não estivesse ocupado lixando a unha durante o holocausto.

Enfim, argumentos.

– 

Outro dia eu tava no Uber e uma menina bonitona passou na rua. O motorista quase parou o carro de tanta emoção, olhou pra mim e disse: 

“Que rostinho mais lindo! Nossa, a urina dela deve ser um licor!!!”

Os padrões de beleza estão cada dia mais altos. Agora não basta ser bonita, precisa mijar Campari.

Pena que não tive reação no momento. Eu devia ter devolvido a bola na mesma intensidade:

“E o cocô deve ser um bombonzinho, hein? Comigo não tem viadagem não, mulher bonita pode cagar em cima de mim que eu gosto.”

Capaz do motorista concordar comigo só pra provar que é macho.

Outro chilique que me chama atenção é o de que a Fernanda Souza ou a Ludmilla só estão com mulheres por trauma ou falta de homem bom no mercado.  Os tempos até mudam, mas a ideia de que alguém só pode ser homossexual porque alguma coisa no caminho deu errado permanece.

Uma amiga minha ficou chateada uma vez porque eu não gostei que ela falou que é um desperdício eu ser gay. Eu sei que o tom é de elogio, mas assim… Aqui não tá tendo desperdício não, viu? Até as folhas e a casca tem sido bem aproveitados, tipo aquela propaganda do Alimente-se Bem do canal Futura.

Mas ainda prevalece o padrão. E daí que a Fernanda Souza é uma atriz simpática, talentosa e com as coxas mais bonitas do Brasil? Se ela não gosta de homem cem por cento do tempo, isso é um absurdo e ela não presta mais.

2022 e a gente insiste em não querer as pessoas de verdade, só o produto idealizado. 

É que nem o motorista do Uber: o povo só quer saber do licor.

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