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Um transtorno pra chamar de seu


Um dos temas que mais mexem comigo é a patologização excessiva da vida. Estamos distribuindo diagnósticos como se fossem camisinhas em bloco de carnaval, muitas vezes sem oferecer um benefício com isso.

O engraçado é que quanto mais eu me coloco criticamente contra essa postura de diagnóstico constante, mais pessoas me procuram procurando por algum tipo de avaliação. 

Talvez elas sintam que, ao conversarem com alguém mais desconfiado, vão ser avaliadas com mais atenção.

Pau no meu cu, né, porque de uns tempos pra cá todo o meu tempo de estudo tem sido gasto em manuais de psicodiagnóstico e de farmacologia.

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Ainda assim, sigo percebendo nessas pessoas uma certa... vontade de receber um diagnóstico. Agora, num mundo tão preconceituoso com a neurodiversidade como nosso, o que faz alguém querer tanto um estigma pra chamar de seu?

De tanto acompanhar processos assim, acho que consegui perceber o sentimento em comum entre essas pessoas: o cansaço.

Receber um diagnóstico nos presenteia com a possibilidade de descansar da luta constante contra os nossos sintomas. É uma autorização que - infelizmente - as pessoas parecem não conseguir dar a si mesmas sem um profissional que as autorize.

Mas é uma libertação: a pessoa finalmente pode se soltar da obrigação de melhorar constantemente, assim como da angústia de perceber que não é capaz de fazer isso.

A gente, como sociedade, sabe muito bem dar porrada em quem sai da linha. 

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Ouso dizer que o diagnóstico ajuda nisso não porque acolhemos mais as pessoas que sofrem de algum transtorno. A sociedade continua se fodendo grandão pra essas pessoas.

O que acontece é que, a partir de um lugar de diferença, as pessoas se acolhem. 

Quer ver gente se tratando com carinho? Visite um fórum de pessoas com déficit de atenção e veja a troca de experiências. Veja uma conversa entre pessoas no espectro autista sobre suas infâncias. Ouça dois ansiosos falando sobre os remédios que tomam.

O senso de "Ei, tudo bem, o que você sente é normal" é muito maior por ali.

Onde mais alguém poderia falar de suas dificuldades de comunicação com pessoas que estão realmente dispostas a lhes entender? Será que, hoje, somos capazes de oferecer espaços assim que não necessariamente passem pela segregação de um diagnóstico?

A sensação de compreensão mútua cura mais do que muitos tratamentos focados em patologias específicas. Sentir que tem o direito de ser quem é, mesmo com as barreiras que tem, deveria estar à disposição de todos.

Esse afeto de pertencimento é um dos grandes tratamentos para a angústia, angústia esta que não vem de doença nenhuma - vem de ser humano.

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