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Legendas e Gerações

Morava com os avós e um primo, a empregada vinha em alguns dias da semana. Os avós não teriam a companhia dos netos se não fosse a faculdade estadual que se instalara na cidade. Talvez preferissem que a faculdade nunca tivesse sido aberta, ou que falisse de uma hora para outra. Aceitaram os netos de favor, porque os filhos nunca puderam fazer estudar e cobravam isso dos pais. Era como uma compensação pelo passado.

O fato é que o encontro de gerações era um péssimo encontro. Era um encontro daqueles que você descobre que a outra pessoa guarda todas as unhas que já cortou na vida num saco de lixo preto dentro do guarda-roupa, e ainda come algumas de vez em quando e que o gosto é de frango. Os avós discordavam dos netos quanto ao horário de dormir, de acordar e de ficar nessa maldita externet.

Quando assistiam TV juntos, ele e a avó, ele ficava irritado só pela presença dela. Claro que ela perguntar o final de cada legenda que fosse mais comprida também ajudava a irritar. Ele passou a ignorar a avó ao máximo que podia, porque assim os momentos em que não a ignorava - pensava ele - não seriam tão irritantes. Mas a avó se ofendeu, e falou que o neto só ficaria contente quando ela morresse. “Drama”, ele pensou.

Alguns dias depois, saindo da sala de televisão, ele encontra o cadáver da avó, balançando e pendurado por uma corda amarrada no pescoço e numa viga da cozinha. “Ai, meu Deus”, ele pensou. Mas não “Ai, meu Deus” de “Ai, meu Deus, o que foi que eu fiz?”, e sim um “Ai, meu Deus” na entonação de “Ai, meu Deus, o gato fez cocô no vaso de plantas mais uma vez”.

Chamou o avô e o primo, que correram desesperados para a cozinha. Ele sentou numa cadeira num canto e ficou assistindo a avó ser retirada da corda, deitada no chão e depois levada embora.

O primo começou a ficar mais tempo em casa, abalado com a morte da avó. Não necessariamente a morte da avó, mas a morte em si. Nunca tinha visto a morte tão de perto, tão apavorante, tão degolada e tão pendurada numa viga da cozinha. Nas poucas vezes que saía de casa, bebia como se fosse morrer no dia seguinte. Um dia, o palpite estava certo: voltou para casa, levou uma bronca do avô por fazer muito barulho, se revoltou e não foi para a cama, foi para a viga.

Saindo da sala de TV, o primo do primo viu o primo pendurado. Chamou o avô e assistiu a cena se repetindo.

O avô sentiu remorso, mas não pela morte do neto, mas por ser a segunda vez que alguém se suicidava naquela casa sem que ele tivesse percebido o mínimo sinal de transtorno. As coisas aconteciam paralelas a ele, não com ele envolvido na história. Isso era errado, era errado, não podia ser certo, não podia. Só podia seguir o mesmo rumo.

Ele saiu da sala de TV e enxergou o avô pendurado e nem chegou perto. Foi direto ao telefone chamar alguém para tirar o corpo do avô dali. Nem compareceu ao enterro.

De início, aproveitou que tinha a casa só para si. Assistia TV em paz, dormia em paz, estudava em paz, vivia em paz. Mas ninguém pedia qual era a legenda, ninguém chegava bêbado e barulhento, ninguém o ofendia mais. A casa era pacífica e monótona demais.

Ele destrancou a porta da frente e foi para a cozinha. Jogou a corda na viga, que já estava marcada pelas outras cordas, e a amarrou lá. Enrolou a corda no pescoço e foi encontrar o resto da família.

Na manhã seguinte, a empregada abriu a porta, caminhou até a cozinha, viu o moço pendurado, e virou o rosto. Então viu a pia cheia de louça e deu meia volta. Saiu para comprar corda.

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