Pular para o conteúdo principal

Festival

De tudo que eu já publiquei nesse blog, nada me deu tanta vontade de apagar quanto a confissão de que eu me masturbava pensando no Marcelo Novaes. Talvez seja porque eu expus uma intimidade desnecessária, talvez seja porque ele está um bagaço nessa novela nova.

--

Quando eu tinha uns quinze anos, comecei a desenvolver uma fascinação por tudo relacionado à novelas. Também pudera, duas novelas das oito seguidas, uma com a Laura Cachorra como vilã e a outra com a Nazaré. Não há homossexual adolescente que resista.

Pois bem, mais ou menos na mesma época a Rede Record abriu um concurso para novos roteiristas de novela. Eu enviei um roteiro, com o título de "Festival".

Enfiei música na novela porque novela que tem algum personagem metido com música quase sempre dá certo. Se não faz sucesso, pelo menos arranja meia dúzia de fãs pro personagem e a emissora lucra com a venda de CDs. Minhas MP3 da Marjorie Estiano não me deixam mentir.

A novela era sobre uma adolescente que perdia os pais e foi morar com a avó. Ela tinha um irmão mais novo, o Emanuel, que era gótico - pra vocês verem como meus personagens eram profundos. A adolescente crescia e virava uma mulher-forte-e-batalhadora-que-rala-muito-para-sustentar-a-família. Toma essa, Griselda.

Apesar de toda a tragédia, o sonho da minha mocinha era cantar, e quando ela descobriu que um festival de novos talentos ia acontecer na cidade, foi correndo para levar sua fita (!!!) para se inscrever. No caminho, ela tropeçava em um chef de cozinha, se machucava, ele se compadecia e a dava uma carona para fazer a inscrição.

Daí pra frente, amor eterno e sofrimento.

--

Hoje em dia é moda toda novela "discutir" um assunto. No máximo o assunto é achincalhado até a morte por excesso de vergonha, mas fica bonito falar que a novela em que o personagem gay não beija na boca "discutiu a homofobia".

Se eu tivesse pensado nisso naquela época, diria que minha novela discutia "o mundo da fama a qualquer preço: do que você está disposto a abrir mão para conseguir a fama?". Tipo qualquer CD de música pop lançado nos últimos dez anos.

--

O problema é que minha novela era muito, mas muito mal escrita. Até procurei meus arquivos para ver se encontrava alguma coisa pra botar aqui, mas não achei. Só lembro de uma cena em que dois personagens discutiam na cama. Era pra ser uma cena de humor, e era mais ou menos assim: Nádia, a mulher inteligente mas dependente do marido rico e burro, queria ler Dostoiévski. Roberto, o marido bobão e amável, dizia que usou para equilibrar a mesa da sala de jantar, que estava meio bamba.

Nádia ficava emputecida. Roberto, tentando consertar as coisas, diz que se ela quisesse ler alguma coisa, ele emprestava um livro do Paulo Coelho. Aí a Nádia batia nele.

Até hoje eu não li porra nenhuma do Dostoiévski, e, quer saber? O Alquimista super me fez chorar quando eu li.

É nessas que eu percebo que eu era o adolescente mais pretensioso do mundo. Isso só mudou quando o Aguinaldo Silva resolveu criar um blog e tirou meu título.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...