Pular para o conteúdo principal

Nada é tanto assim

Vamos lá, umas perguntas e respostas sobre felicidade pra economizar na terapia:

"Por que eu capricho tanto nas coisas que eu faço e nada dá certo?"
Primeiro, certeza que um monte de coisa já deve ter dado certo na sua vida. Segundo, porque esforço não é garantia de sucesso. Infelizmente, muita coisa na vida é sorte.

"Mas então não adianta me esforçar em nada?"
Fica um tempo sem se esforçar pra nada pra ver o farrapo que você fica. Ninguém aguenta. Viver é isso, querer dar conta de uma missão grande e errar na maior parte das vezes. De vez em quando você insiste e acerta e isso é muito legal.

"Só vai ser legal quando eu acertar, então?"
Só se você for bobo. Mesmo se você ganhasse um Oscar, pode ter certeza que você ia estar insatisfeito um mês depois. É assim que o nosso cérebro funciona. Não dá pra ganhar um Oscar por mês, então não é muito inteligente depender de conquistas pra ser feliz.

"Como que eu vou ser feliz se não conquistar nada?"
Ô filhote, olha a quantidade de coisa que você já conquistou e o quanto você ainda está infeliz.
Não existe condição para a felicidade. Tá ligado o Jó, da Bíblia? O da paciência?
Então, essa é história é uma puta metáfora para a felicidade. O homem perdeu tudo o que tinha, filhos, dinheiro, o cargo de gerente na loja de departamento, abriu o pote de sorvete na geladeira e achou feijão, tudo. Mesmo assim, seguiu em frente e tentou não amaldiçoar a vida que tinha. Quando viu, tinha outros filhos, dinheiro, um cargo melhor na loja concorrente e o feijão valorizou.
Enquanto você não valorizar o que tem, não vai ter muita coisa mesmo.

"Então eu não posso reclamar da vida?"
Pode sim. Deve.
Gente que tenta ser positiva o tempo todo fica recalcada e chata. Reclamar faz bem. Só não reclama o tempo todo, por favor.

"Mas tem pessoas com vidas mais fáceis que a minha"
Tem mesmo. Tem um monte. E um monte de gente com a vida mais difícil, também.
Não dá pra comparar. Mas é injusto mesmo e dá pra reclamar a vontade. Se tiver idealismo e tolerância suficiente pra lidar com a frustração, você pode até tentar fazer algo a respeito.

"Mas o ser humano foi feito pra evoluir!"
Olha que evoluído você. Molhando o travesseiro toda a noite querendo acertar em alguma coisa. Não adianta nada ter quarenta anos de idade e ainda querer ser o anjinho do presépio da vovó, a fonte de orgulho interminável sabe-se lá para quem.
VOCÊ É GENTE. Gente erra, gente se engana, gente faz coisa errada sabendo que é errado. Gente é gente.
E gente que se faz de evoluída demais é recalcada e entediante. Você é bem mais evoluído quando aceita o que é e o que pode aguentar.

"Mas eu quero fazer algo de grande!"
Começa fazendo alguma coisa pequena, cara, porque coisa grande é difícil pra caramba pra fazer e as coisas simplesmente NÃO SÃO TÃO IMPORTANTES QUANTO VOCÊ PENSA.
Que mania de achar que tudo é importante, meu deus. Precisar de tudo certinho pra ser feliz é arrogância e apego, não evolução. Sossega o drama.

"Mas aí a vida fica muito chata!"
Cara, não duvida da sua capacidade de ser feliz e de dar conta do que a vida trouxer.
Sem dar importância a acertar em tudo, sem dar importância a ter alguém específico do seu lado, só dando importância a estar tranquilo. Estar tranquilo é muito mais importante do que estar feliz.
Feliz é a Peppa Pig, e ninguém consegue assistir a Peppa por muito tempo.

A vida é bonita inteira, gente.
Tem tanta beleza no dia do seu casamento quanto no do funeral da pessoa que você mais ama. É só questão de aprender a ver o que tem de bonito ali e saber que tudo passa.
Nada é tão importante assim.
E sofrer não é tão ruim assim, você até gosta um pouco, assume.

Nada é TANTO ASSIM.
Pega mais leve. Depois me conta como foi.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...