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Jacuzzi

Quarto lugar no vestibular pra entrar na faculdade mais concorrida do país. Não o suficiente pra se gabar – pelo menos não para ela. A perfeição era tão presente na sua vida que tudo o que não era perfeito ou perto disso era descartado.

Medicina, e depois se especializaria em plástica. Não que ela fosse superficial, superficialidade é defeito e ela beirava à perfeição (ainda mais pela modéstia, ela sempre agia igual com todos). Você poderia julgá-la pela aparência, mas ela jamais te julgaria por isso. Inteligente, sempre a melhor aluna da sala. Não dependia apenas do estudo para se distrair. Tinha amigas. Amigos. Namorados, mas sempre namoros mais longos, que acabavam por algum acontecimento grande desses que a vida está cheia e não se pode escolher. Mesmo assim, beirava à perfeição.

O dia já começou difícil. Acordou atrasada e correu para o hospital. A especialização parecia cada dia mais distante. Dor nas costas, o dia inteiro, e mesmo assim, o sorriso impecável no rosto, a simpatia em cada conversa, o brilho ainda nos olhos azuis, o cabelo loiro que parecia perfeitamente planejado.

Fora o cansaço, seria mais um dia normal. Faltava pouco pro horário de sair. Assim que chegasse em casa, tomaria um banho de banheira e dormiria, talvez tomando um comprimidinho pra relaxar. Lembrou do seu cachorro e isso deu fôlego pra continuar o dia.

Pouco antes do horário de sair, chega uma ambulância. Mais um desafio, mais uma oportunidade para ela salvar o dia - e ficar ainda mais cansada. É uma criança, uma menina, que se contorce de dor, toda vermelha do sangue. Ela acalma a menina com um olhar.

Foi atropelamento, e a mão da menina foi quase arrancada pelo carro. O motorista fugiu. A menina ainda chora. Ela chama mais médicos. Sala de cirurgia, e mesmo anestesiada a menina tinha expressão de dor no rosto. A mão estava comprometida demais.

O médico que a supervisionava aquela tarde resolve dar uma chance para a aluna e pede para ela mesmo pegar a serra - incrível como não há exatamente um equipamento especializado pra esse tipo de amputação, usa-se serra mesmo - e amputar o que sobrava da mão da criança. Aliás, pouco sobrava da mão. Foi-se um pedaço do antebraço, também.

Quando a menina acordou da anestesia, ficou desesperada com a falta da mão, com aquela pontinha enfaixada do braço. A quase-médica observando a agonia da garota. Agonia, agonia. E o sistema público não cobriria um tratamento psicológico. Ela esperaria uns dias, e voltaria pra casa. Mesmo assim, a menina foi atendida com toda a atenção e cuidado, porque a estudante que a tratara beirava a perfeição..

Quase perfeita, mas ainda assim muito assustada com o que viu. Nunca tinha participado de nada assim antes. Viu a menina perder uma parte do corpo, uma parte da vida, uma parte da auto-estima. Passou no gabinete de remédios, voltou para a sala de cirurgia, guardou suas coisas e foi embora. O turno acabou.

Chegou em casa. Tinha pego uns comprimidos fortes no hospital, estavam na bolsa. Não queria continuar a se sentir perturbada. Encheu a banheira. Abriu uma garrafa de champagne que estava guardada há tempos para alguma ocasião especial, tirou uma tulipa do armário e a encheu.

Foi para a banheira. Tomou os comprimidos todos de uma vez. Estava zonza. Tirou a serra que roubou da sala de cirurgia. Lembrava do rosto da menina, do resto da mão que foi jogada fora como lixo hospitalar, da agonia. Não sentia nada mais no corpo. Zonza. Pegou a serra e cortou a mão esquerda. Com força. Não sentia muito, mas ainda doía. Mesmo se não sentisse nada, estava em choque e tudo parecia absurdo. Conseguiu cortar toda a mão.

Cada vez mais zonza, largou a serra da mão direita, pegou a tulipa cheia de champagne e bebeu um gole. Pensa “Não é bom misturar remédios com álcool”, e percebe que isso não faria diferença nenhuma agora. Ri do pensamento bobo. A água da banheira começava a ficar vermelha. Ela, cada vez mais zonza e porfim derrubou o champagne no chão. A hidromassagem continuava a espalhar o vermelho na água. Não sentiu mais nada até apagar de vez.

E beirava à perfeição.



(com um agradecimento à Dra. Hanna Machado, que me passou umas informaçõezinhas médicas pro texto)

Comentários

  1. Anônimo8:32 PM

    Aí está o texto sobre amputação que você queria dados..Muito bom! Cheguei a pensar que, pelas dores nas costas, ela tivesse muito doente. Mas nunca me passou pela cabeça o fim que você criou.

    Flávio, você bem que podia mandar pra cada um de nós uma folhinha com uma dedicatória e sua assinatura. Assim, quando você for famoso, a gente pode ganhar um $$ também em cima da sua fama =P

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  2. Anônimo9:33 PM

    Eu sou péssima com comentários, Flávio, ainda mais depois de ler um texto desse. Eu fico besta, sabe. Muito, muito bom.
    Vou imprimir e mandar pra minha mãe, que ainda acredita em pessoas perfeitas.

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  3. Anônimo1:36 PM

    Caraí...O final choca legal. Não imaginei que fosse acontecer isso.

    Posso até dizer que esse texto beira a perfeição.

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  4. Olá, estava ansioso por outro texto seu, deois de tanta demora.....
    realemente envolvedor e conta com o ingrediente da surpresa, ou melhor do espanto.

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  5. Muito bom persona. Muito bom.

    Eu gosto dessas histórias de finais surpreendentes. Com essa não poderia ser diferente.

    E, bem, talvez eu esteja sobre o efeito de culpa por me ausentar tanto. Mas eu acho que esse foi um dos seus melhores textos. =)

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  6. Anônimo9:02 PM

    O Lord ACHA que esse foi um dos melhores?

    Entrou no top fácil. Muito, muito bom, Flávio. Fodástico.

    Tô eu te elogiando de novo... Pergunto-me se você ainda acredita nos meus elogios. Beijão.

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  7. Gostei.
    Para uma sexta-feira 13...um ótimo texto...
    Acho q td mundo vai imprimir pra dar pra mãe...
    hauhauhauahuahuahua

    Mto tempo não venho aqui... vc já está na faculdade?
    bjs

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  8. Sabe quando você lê uma coisa tão boa, tão surpreendente, tão foda que você não sabe nem oq dizer?
    Foi oq aconeceu comigo agora.

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  9. Esse texto é muito perturbador.
    Com licença que eu vou ali abrir um champanhe.

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  10. Nossa, passo tanto tempo sem vir aqui porque hein?

    Fantastico Flá!

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  11. "Porra de mania que é procurar a perfeição. De tanto procurar ser perfeito, me tornei um bosta até na única coisa que eu sei fazer não tão mal: escrever"
    Você dando respostas a si mesmo é genial, Flávio.
    E eu tava tão envolvido nos detalhes da narrativa, que nem imaginava que o desfecho pudesse trazer uma lição tão arrebatadora.
    Parabéns e Grande Abraço!

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  12. Anônimo8:37 AM

    Parabéns, isso basta!

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  13. Anônimo3:55 AM

    Sei lá, sabe. Essa história me lembra essa semana, foi estranha. Mas não deixa de ser verdade. E foi verdade na minha semana (Y)

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  14. Realmente Flavio.

    Muito bom. Sutil.

    Perfeito.

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  15. Anônimo1:11 AM

    Excelente Texto!!!

    Depois deste, passarei sempre por aqui para curiar!!

    Abçs

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  16. Anônimo11:34 AM

    Flavimmm vc mandou a carta pra ituiutaba neh, eu to uberlandia, mas minha mãe jah encaminhou ela pra ca. aguardo anciosamente.
    e seu texto me deixou sem palavras.
    e eu concordo com a moça do primeiro comentario,,,qdo vc for famoso eu vou vender xerox da sua carta pra mim
    urrullllllll!!
    te amo lindaum
    bjos

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  17. eu ainda estou tentando absorver os acontecimentos desse conto.

    divino, flávio. estuda, porque tu tem potencial (e MUITO) prá ser um grande escritor.

    quando ficar famoso, vê se não esquece dos leitores do seu blog, tá?
    ;3

    beijo

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