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Lilith

O que diferencia casais antigos de casais recentes é o tempo que passam juntos. Mais especificamente, é como gastam o tempo. Casais recém-formados costumam passar horas juntos, contando cada detalhe que lhes passa a cabeça, e tudo é interessante e digno de atenção. Casais com mais tempo de união passam, também, muito do seu tempo um com o outro, mas as conversas diminuem.

É como se o tempo junto fosse mais precioso, e cada um prefere resumir o que deve falar ao essencial, ao que mais lhe incomoda. Chegando em casa, desabam seus problemas sobre o ombro alheio, em busca de conforto. Os ombros pesam. Fala-se muito, até. Mas foca-se no que dói.

E só no que dói.

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A Bíblia, dizem alguns estudiosos, teve uma pequena alteração no livro de Gênesis. No primeiro capítulo narra-se a criação, até onde se cria o primeiro humano. Depois, no segundo capítulo, há outra narração sobre como o primeiro homem foi criado pelo deus bíblico.

Isso porque Jeová teria criado homem e mulher, macho e fêmea, Adão e Lilith, criados ao mesmo tempo, os dois feitos de barro. Ao deitarem juntos pela primeira vez, Lilith teria recusado ficar abaixo de Adão, submissa. Exigia igualdade.

Para resolver o problema, Adão pediu a deus uma nova companheira, uma ajudante, uma coadjuvante. A equivalência não seria justa, e então Jeová aniquilou Lilith para criar Eva, criada não do barro como Adão, mas de sua costela, para que nunca mais o homem tivesse de lidar com um ser equivalente. Eva foi ensinada a ser inferior, o exemplo da mulher que a Bíblia ensinaria a ser inferior por milênios. Eva era submissa.

E Eva fez com que Adão perdesse o direito à vida eterna. Adão deve ter ficado feliz: Morrendo não sentiria tanta falta de Lilith.

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Cláudia tinha seis anos quando conheceu Nonair. As duas tornaram-se melhores amigas em poucos minutos, um giz de cera emprestado e estavam unidas para toda a vida.

- Sim, para toda a vida, mesmo se nunca mais se vissem. Não é como se quando um relacionamento acabasse e todos os laços miraculosamente desatassem. Sempre há sobras. Sempre há cicatrizes -

Aos dezessete, foram morar juntas enquanto faziam faculdade. Em poucos meses descobriram que não era só amizade, era amizade, mas mais que amizade, e se tornaram mais que amigas. Mudaram de endereço várias vezes, mas tudo o que tinham desde a faculdade foi guardado junto.

Assim foi até que, trinta e três anos depois, Nonair decidiu que tinham livros demais. Deviam jogar fora algumas coisas. “Tem coisa que tá aí desde os tempos de facul!”, mas Cláudia não compreendia. Para Cláudia, não eram livros que Nonair queria jogar fora. Eram dias. Eram histórias. Eram símbolos da vida em comunhão do casal.

“Guarda. É só organizar que cabe tudo. É bom guardar”, Cláudia dizia, mas Nonair achava que “Presta pra nada, melhor jogar fora. Olha esse livro, tá sem capa e acho que metade das páginas já caiu”, mas Cláudia lembrava que a capa tinha caído numa sessão intensa de sexo na escrivaninha, e Nonair nada, e Cláudia se ressentiu.

Trinta e três anos de casamento, quarenta e quatro de amizade, e nada tinha magoado Cláudia com tanta violência. Era mais uma cicatriz, e Cláudia nunca mais foi a mesma, e Nonair pensou que sua esposa tinha murchado. Nonair também murchou, tempo depois. O casal perdeu o viço e a mais que amizade tinha virado amizade e depois menos que amizade, apenas companhia.

O que nem Cláudia nem Nonair sabiam era que, mesmo quando o relacionamento é de muito tempo, não brigar não significa estar bem. O mais saudável sempre é evitar que o coração já dinossauro da relação se petrifique. Se soubesse que o melhor é sempre ter a capacidade de ser machucado e assim fugir do risco de fossilização, Claudia teria jogado um livro na testa de Nonair e brigariam e mais tarde arrancariam o resto das páginas do livro com mais uma boa trepada na escrivaninha.

Mas Claudia se deixou murchar, renunciou à Lilith e virou Eva, e passou o resto da vida se sentindo um pedaço de costela.



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Desculpem pelo tempo ainda mais longo que o normal pra postar. Pra saber mais sobre o mito de Lilith, clique aqui.

Comentários

  1. Não desculpo o exagero de tempo sem posts...
    Onde você adquiriu essa sabedoria, guri???

    ResponderExcluir
  2. Anônimo4:43 PM

    Você disse que talvez este fosse o melhor texto e eu acho que concordo com você!

    ResponderExcluir
  3. ainda bem que eu não bebo!
    valeu a sua visita!

    ResponderExcluir
  4. :)


    oie flavinho, tentei adicionar seu blog nos meus favoritos do blog, mas acredita que esqueci aonde faz isso?
    tentarei mais tarde.

    =)

    ResponderExcluir
  5. Anônimo11:46 PM

    Primeira visita. Adorei seus textos, esse então é muito bom...
    Parabéns

    ResponderExcluir
  6. Anônimo3:21 PM

    Gorgeous!

    ResponderExcluir

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