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O ser idiota

Estava tão melancólico que quando fui interrompido por um momento de alegria, fiquei triste. Um flerte com a felicidade é bom, mas um relacionamento mais sério não costuma dar certo. O amor banaliza, todos ficamos iguais quando estamos apaixonados, assim como ficamos iguais quando estamos de luto. Nos extremos das emoções, todos somos a mesma racinha monocromática e alegre, ou monocromática e triste, sem relatividade e sem intersecções entre uma sensação e outra.

Como uma foto, sem profundidade, plana e colorida, ou seu negativo escuro e cheio de sombras. E isso me apavora. A banalização, a humanização completa. Ser gente. Tem coisa mais assustadora que ser gente? Prefero ser melancólico, melancolicamente inventar alguma coisa que me separe da humanidade.

Personagem puro. Cenas, cenário, figurino. Chet Baker tocando, vinho na mão girando numa taça, cigarro baforado lentamente, cara de cu. Citar escritores obscuros. Rir de si mesmo, e depois dizer 'Idiotice minha, esquece.' Me esconder, me reservar. Passar horas sozinho, fazendo questão de que todos percebam que passo horas sozinho.

Pior que isso, pensar que é isso que me define. Acreditar que sem isso é impossível. Cair na vala da idiotice pra não cair na vala da humanidade. Que ciências humanas, o quê. Inventemos as Ciências Idiotas. Seremos todos únicos, todos melancólicos, todos pessoas especiais. Todos fazendo a mesma coisa e reclamando de não ter ninguém que nos entenda.

Afirmar que o futuro é nosso, que dominaremos o mundo. Somos os seres idiotas, aqueles que compreendem o contra-senso de ser humano e por isso comentam música e vinhos. Que seguram peidos, mas debatem calorosamente a repressão cultural sobre um peido. Falamos da hipocrisia da beleza, mas escondidos, nos arrumamos para parecer esquisitos o suficiente para causar fascínio, mas não demais para não causar repulsa. Estamos de bem com nossa feiúra, mas adoramos ganhar um elogio só pra falar "Não, são seus olhos".

Os seres idiotas, nós, somos uma evolução dos seres humanos. Tudo é sutil, tudo é não-manifesto. Abraçamos a idéia da nossa não importância. Estamos em harmonia com a desarmonia, em acordo com o desacordo. Estamos eternamente em botão, florescer é vulgar e humano demais.

Nós, os seres idiotas, somos dependentes da nossa co-dependência. Jogamos nossa expectativa na não expectativa. Não assistimos filmes que todo mundo assista. Assistimos cinema alternativo, mas não os clichês do cinema alternativo, porque aí fica mainstream demais. Se o personagem é um ser idiota, melhor ainda. Atributos esquisitos, veneramos atributos esquisitos. Só não dá pra chamar de ídolo. Ídolos são humanos demais para um verdadeiro idiota.

Comentários

  1. Anônimo6:58 PM

    Talvez ser igual é o que nos difere do resto da humanidade, pois em um mundo onde todos tentam ser diferentes,ser igual talvez seja o difdrencial.

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  2. Isso foi muito intenso. Você viu a etmologia da palavra idiota? Vem do grego idiótes, que eram as pessoas que não participavam da vida na pólis e preocupavam-se apenas com suas vidas privadas. E é assim a nossa sociedade, né? Estamos nos preocupando apenas com o nosso espaço. Seu texto tem tudo a ver com o rumo que o mundo vem tomando, esse novo ser idiota que surje e toma conta de todos os espaços e transforma o privado em público. Parabéns.

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  3. Anônimo7:24 PM

    Flávio!! Só pra te falar q eu ainda venho aqui ler seus textos e pra mim eles estão cada dia melhores. Sabe, ano passado eu lia todo dia uma coluna do caderno Ilustrada da Folha de São Paulo, vc deve conhecer os colunistas de lá, cada dia é um diferente. Dai lendo esse texto seu eu me senti como eu me sentia qdo eu lia essa coluna da Ilustrada. Logo, pra mim vc tá escrevendo q nein eles! Entedeu?!? hehe vc é demais né..
    bjão, te cuida.

    Obs.: eu já ia lendo essa macumba da pomba gira ai, apaga isso Flávio, tem dó.

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  4. Anônimo6:57 PM

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