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Coração de Manteiga

Estava comendo um cachorro-quente olhando pela janela que dá pra rua, e me surpreendi com o olhar de uma criança, bem nova, que me fitava com inveja enquanto remexia o meu lixo. Todos os meus sentidos cristãos bonzinhos foram afetados, me senti o próprio anticristo. Por pouco não corri até a cozinha e peguei tudo de lá, só pra correr pela rua entregando e gritando "Não sofreis, trouxe víveres!". Enquanto viajava nas possibilidades de ser herói e na tristeza da figura quase bíblica da criancinha pobre, me peguei pensando que todos nós no mundo sofremos, em maior ou menor grau, aliás, que nem existe grau, já que não existe sofrimentômetro pra medir essas coisas.

Coisa de gente fútil com a barriga cheia. Aí, pra piorar, me lembrei da minha solidão (tudo ainda nos parâmetros que eu aprendi na escola bíblica, quando criança, aquelas unidades de medida tão brasileiras: "de dar dó", "um milhão de vezes", "me matei fazendo isso por você"), a minha solidão abismal (abismal! meu professor de catecismo morreria de orgulho lendo isso, morreria outra vez, já que ele se matava pelos alunos), e como eu sofro por essa solidão. Toda noite eu choro no travesseiro, vocês têm idéia da dor?

Meu travesseiro tem. Ele chora toda noite também, quando me vê chegando. "Merda, chegou o babão". Problema do travesseiro, quem mandou cair do ganso. É de pena caída do ganso que eles fazem travesseiros, né? Não pegam o coitado do ganso e passam o Satinelle nele, espero. Problema do ganso, também, quem mandou nascer ganso. Enfim, minha solidão. É tão ruim quanto o sofrimento da criancinha, pôxa. Ela não tem o que comer, eu não tenho quem me coma, o que é pior, hein? Aposto que a criança de rua deve fazer sexo muito mais frequentemente que eu, a sortuda.

E eu tenho bom coração, esses dias o cachorro roeu meu sapato de couro inteiro e nem bati nele tanto assim. Eu tenho coração de manteiga. E ninguém se interessa por mim, pôxa? Sempre cumprimentei pobre, sempre tratei preto como se fosse gente! Nos relacionamentos que eu tive, principalmente, me derreto todo. Levo café na cama, nem ligo de repartir o banheiro, brigo constantemente pra pessoa me dar valor, faço chantagenzinha o tempo todo pra fazer charme. O romance ideal.

Mas fica sempre um vazio, é tão triste. Quem sabe com outro cachorro-quente. Duvido que a criancinha gaste tanto tempo teorizando sobre mim.

Comentários

  1. Anônimo4:01 PM

    Achei de alguma forma diferente das outras coisas suas que eu já li. Bem bom, mas há um toque diferente. Não sei dizer de que.

    Beijo.

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  2. se eu fosse vc tinha dado o cachorro quente

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  3. Esse texto tem uma sinceridade de algo que foi escrito pra que ninguém leia. [como alguma reflexão escrita para o caderno]
    Teu coração é algo que não pode ser lido, cabra?
    "Não sofreis, trouxe víveres!"

    *=

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  4. Anônimo10:43 AM

    Te achei sem querer, comentando no post sobre o CD novo da Tori Amos, gostei do nome e cliquei pra ver o perfil. Super demais beijar um Pateta. Parabéns pelo blog. Já deve ter lido isso muitas vezes. Gostava de quando eu tinha 18 anos, não achava nada útil pra fazer e escrevia. Agora dependo do tempo... mas claro que o assunto do comentário não deve ser eu!
    Parabéns de novo.

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  5. Anônimo7:27 PM

    achei uma coisa inútil e grande perca de tempo com coisa idiota como essa..

    p.s. TPM me abalando

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  6. anelita3:17 PM

    ...ainda to pensando na questão de comer ou ser comida................ uahuahuaha
    bjos flá

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  7. Anônimo8:50 PM

    eu amo muito op programa principalmente quando o evaristo com eees chame todo e sandra beijo amo vc dois boa tarde

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