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Bibliotecas

O mundo mudou, e hoje somos completamente dependentes da grande biblioteca virtual - como diria uma reportagem de televisão sobre a internet, ignorando que ninguém pega vírus numa biblioteca normal (a não ser transando no banheiro da biblioteca, e sem camisinha). O problema mesmo foi quando a internet resolveu meter a mão nas bibliotecas de verdade, aquela metida.

É prático poder renovar o livro só entrando no site da biblioteca e botando o código de barras da sua carteirinha? Prático, é. Só que livro de biblioteca não tem a mesma graça se você não lembrar no fim da tarde que hoje é o último dia para a devolução e tiver que sair correndo pra não pagar a - caríssima - multa de um real por dia de atraso.

E outra, não é mais carteirinha, é cartão. Ficou tudo magnético demais, nem carimbo o cartão leva! Lembram dos carimbos de biblioteca? De morrer de orgulho porque teve de trocar quatro vezes de carteirinha no ano letivo, porque não sobrava mais espaço pra carimbar os livros?

Sem contar na delícia de olhar o cartão pendurado na parte de trás do livro, com as datas de devolução de quem pegou o livro antes de você. Ótimo pra ficar indignado: "Como assim, ninguém empresta Na Sala com Danuza desde 1997?", e depois comentar com todo mundo que as pessoas não lêem mais nada que preste.

E os códigos? Agora toda biblioteca tem vários computadores pra você procurar o livro pelo título, e é só dar Enter para saber em qual estante o livro está. Antes não, era preciso procurar a seção de Literatura, depois de Literatura Brasileira, depois de Clássicos, e achar o livro por ordem alfabética - escravidão! Tudo naqueles corredores frios, e aquela vontade de soltar pum que só um corredor de biblioteca consegue dar.

Me surpreende mesmo é que as bibliotecárias - essas sortudas - tenham se adaptado às mudanças. Se fosse eu no lugar delas, iam me encontrar abraçado nas fotos 3x4 e na cola de bastão, me recusando a largar as carteirinhas de papel. E os carimbos, meu deus? Largava o emprego, mas não os carimbos. Ia pra casa, carimbar todos os meus livros, todas as vezes que eu lesse. "Como assim, eu não leio Tereza Batista Cansada de Guerra desde 2006?". E dá-lhe carimbo.

Comentários

  1. Normal12:01 AM

    Eu gostava do cartões de locação também.
    Tinha uma menina que eu jurava que poderia ser minha amiga porque alugava os livros dos Karas também.

    E mesmo com o sistema de busca pelo internet, eu ainda passo uns minutos pra achar o livro. =/

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  2. E como eu faço pra me orgulhar que sei a linguagem de DEWEY e consigo achar livros em Biblioteca pelas linguagens de classificação se agora tem pc??? Isto é um saco tb!!

    Eu fazia mto isto de comentar que não emprestam os livros de Mario Vargas Llosa desde os anos 90 e eu adoro ele!! rs rs rs

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  3. Monique7:44 PM

    Ah, amor... Eu gosto tanto da praticidade que acaba batendo a nostalgia. =P

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  4. anelita3:11 PM

    eu to devendo 8 reais pra biblioteca da faculdade! ehehhe

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