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O velho Paço

Ficava numa praça perdida entre outras tantas praças da grande cidade. Estava lá desde 1800 e qualquer coisa. O Paço era só mais uma construção antiga entre todas as outras que sobreviveram lá e cá.

Viu gerações nascerem e morrerem. Recebeu tanta gente, no seu tempo áureo - disputadíssimo, local em que pessoas medíocres recebiam honras mais ou menos. Pessoas não tão importantes assim, que adoravam o sentimento de importância que vinha de estar nos seus salões.

Perdeu a glória aos poucos. A sua imponência parecia zombar da sua inutilidade. A cidade se acostumou com o trambolho de concreto na praça. Construiu trambolhos maiores, que roubaram a importância do velho paço.

Recebia apenas a visita do vento frio que entrava por suas vidraças quebradas, que passava assobiando canções de abandono. Volta e meia abrigava um mendigo que conseguia dormir mesmo com o barulho e frio trazidos pelo vento.

Suas gigantescas paredes externas passaram a escorar prostitutas cansadas de se apoiar nos estreitos saltos durante a noite. Às vezes, recebiam a honra de um bêbado mijando. Ratos passavam por lá e cá, freqüentadores assíduos.

O Paço assistia. Viu pessoas brigando por coisas que também viu serem esquecidas. Viu, enojado, a pequena praça que lhe fazia companhia ganhar um calçamento feio de petit-pavet.

Viu as casas que lhe cercavam darem lugar a edifícios. Viu o tempo fazer seus remendos e estragos em tudo o que lhe rodeava - e em si mesmo. A paisagem mudou, mas permanecia o Paço, como um velho que não consegue morrer mesmo se sentindo um estorvo para os que ficaram.

Até que um dia um pequeno visionário qualquer se compadeceu do Paço. Convenceu um, convenceu outro, e começou a restauração. As paredes de madeira podre, do lado de dentro, foram todas quebradas e reconstruídas com um tijolo fajuto, que daria um ar mais histórico.

O Paço foi percebendo que era velho, não histórico. Pra ser histórico, precisava mudar. Viu suas lajes estupradas por encanamento e fiação elétrica. Viu as vidraças quebradas serem trocadas por outras de acrílico, semelhantes às antigas mas mais baratas. Recebeu pintura nova. Quadros valiosos.

Foi reinaugurado com pompa. A iluminação nova foi caríssima, e o Paço nunca pareceu tão imponente - nem nos tempos em que era novidade. As pessoas que passavam por ali sem notar o velho, notaram o histórico. Abismadas. Tiravam fotos, achavam lindo.

Voltou a glória. Mas, embalsamado vivo, o Paço não achou mais nada. Ganhou a eternidade, pelo menos por algum tempo. Mas perdeu a alma.

Comentários

  1. Que fofo esse texto, adorei. Por acaso não adaste lendo pra faculdade o Memória e Sociedade, da Ecléia? Tipo senão, um texto sobre memória assim tão lindo é um prodígio :-)

    Amei.

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  2. Você sabe que sou seu fã, né?

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  3. Anônimo8:10 PM

    Recomendo a todos para darem uma espiadinha nesse blog http://transclehn.blogspot.com/ muito bom loucura loucura.

    ResponderExcluir
  4. Muito bonito o texto. Parabéns pela sensível percepção!

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  5. Anônimo7:31 PM

    Credo,quantos macumbeiros neste site,
    procurem a ajuda de Deus e não do Capeta...

    :(

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  6. Anônimo7:34 PM

    AVISO:
    ESTE NÃO É UM SITE DE MACUMBEIROS...
    É UM SITE DE PESSOAS CIVILIZADAS,NÃO DE IDIOTAS QUE NÃO ACHAM NADA DE INTERRESSANTE PARA FAZER,A NÃO SER A MACUMBA,PORTANTO PARE DE SER FEITICEIRO E VENHA SER UMA PESSOA CRISTÃ

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