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O Rei do Penico

A vida era uma linda sucessão de descobertas divertidas até o momento da descoberta não-divertida que me mudou a vida: do alto do meu penico, eu dominava o mundo.

Só podia, só assim se explicava a aflição da minha família para que eu saísse dali: minha mãe, meu pai, minha avó, todos suplicantes, ajoelhados, falando "Vamos lá, campeão, você consegue! É só empurrar!". Isso no começo, lógico. Depois de alguns minutos de insistência, porém, não suportavam mais o meu olhar condescendente de quem manda, e tentavam usar de tirania. "Se você não fizer agora e quiser vir depois, eu não te trago!".

Bobagem deles. Era eu quem fazia as regras do jogo. Não me levavam depois? Tudo bem. Mas no momento que me esquecessem sem fralda, era a hora do ataque. Bombardeio químico. Não me importava em nada com o trabalho que eles (eles, o inimigo) teriam para lavar minhas calçolas.

O poder traz desafios, meus caros. Mas eu sempre fui meio Napoleão do meu bumbum, e conquistava outros territórios. Não me bastava o penico. Eu queria o mundo. O tapete de sala. O vaso de plantas na sala de jantar. Nenhuma terra era impossível para o meu domínio. Só não atingi outros continentes por uma questão de logística.

Aliás, talvez não tenha conquistado outros continentes por uma questão de incontinência, mesmo. Quem diria que contrair o esfíncter seria tão difícil. Tudo bem, eu sou persistente. Mamãe implora para que eu vá. Não vou. Um bom governante sabe resistir aos apelos do povo, quando estes não lhe são interessantes. Com toda a segurança do mundo, eu seguro.

É difícil a ponto de deixar escapar uns punzinhos, e quem não deixa? Mas eu no máximo disfarço com um sorriso besta - não tanto pelo pum, mais pelo rosto esperançoso de mamãe, que esperava uma manifestação mais concreta do meu poderio.

Mas tudo na vida muda e, talvez por alguma atitude relapsa no meu governo, fui transferido para o vaso sanitário. Pensei ter sido promovido, mas, que nada. É um reino de vários reis. Sou um mero vassalo do meu intestino.

Nada que tenha me irritado muito, até o dia em que mandaram que eu parasse de brincar com meu cetro na frente das visitas.

Comentários

  1. 'Mas eu sempre fui meio Napoleão do meu bumbum, e conquistava outros territórios'.
    Esse é mais um texto genial deixando algumas pistas sobre o teu presente, Flá.
    ;*

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  2. Meio psicanalista? Talvez? Não canso de dizer o orgulho que tenho de você, mesmo você sendo nojentinho ahaha! Será que tem imaginação? Freud, digo Flávio! Atos falhos? Certeza que não são! ;**

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