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Astronauta

Acontece que sempre que eu olho pela janela tem um avião passando.
São muitos aviões passando todo dia, e cada um vai para um lugar diferente. E eu não consigo nem sair do apartamento!
O décimo-sétimo andar do prédio-poleiro me parece suficiente para viver em paz, quando eu não lembro que divido meu espaço com gente que ouve cada grito que eu solto quando me sinto sozinho demais e o silêncio me aperta a faringe.

É pra não parecer sozinho. Olha só, eu rio! Os vizinhos sabem que eu rio. Tem dias que eu chego em casa e rio bem alto, por horas a fio. É pra eles saberem que eu sou feliz. Só que ninguém é feliz assim, de ser só feliz, então tem dias que eu também choro. Mas eu choro sempre bem baixinho, porque bem baixinho é o meu jeito de chorar. Eu choro bem baixinho porque eu sei que se eu chorasse bem alto, eu ia incomodar os outros.

Aí, pra que saibam que eu não sou feliz o tempo todo e que eu não sou doente de só ficar em casa rindo, eu dou uns soluços bem altos. Aí eles percebem.

E pra não pensarem que é solidão, de vez em quando eu pego o celular e vou pra janela pra conversar com alguém. Meu celular não tem créditos. Não tem nem bateria, acho. Não lembro quando foi a última vez que conversei com alguém. Mas eu estou ali, todos os dias, meia hora na janela falando ao telefone.

"Estou com saudades!", eu me despeço bem alto. "Mal posso esperar pra te ver de novo". E desligo de mentirinha.
Aí eles sabem que eu gosto de alguém. E que eu sinto saudades.
Mal sabem eles que eu não gosto, nem sinto saudades - simplesmente porque eu não conheço o outro lado da linha. Não há outro lado na linha.

E quando eu desligo o celular de mentirinha, eu olho pra cima e vejo um avião passando.

Sempre que eu olho pela janela tem um avião passando. E ele passa por cima de mim, me atropelando sem saber.
Sem saber que um dia eu vou sair desse apartamento.
Que um dia eu vou gostar de alguém de verdade, e sentir saudades de verdade, e pegar um avião e ir pra bem longe, pra bem perto de onde a saudade apontar.

E aí o apartamento vai me parecer tão pequeno.
E depois de um tempo, o mundo vai me aparecer tão pequeno.
E depois de mais tempo, aviões não vão mais me bastar.

Aí eu viro astronauta, e fujo desse planeta pra nunca mais voltar.

Comentários

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Monique1:25 PM

    Triste eu ter me identificado com partes do texto. =/

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  3. Anônimo5:30 PM

    Que bonito e triste!

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  4. Anônimo10:33 PM

    Que lindo, profundo!

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  5. "Que um dia eu vou gostar de alguém de verdade, e sentir saudades de verdade, e pegar um avião e ir pra bem longe, pra bem perto de onde a saudade apontar."

    Gostei,
    esse "um dia" poderia ser hj =/


    =*

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  6. oi eu tenho tv por assinatura sou de guarulhos sp eu gosto de muitos filmes do canal FOX mas que eu e minha familia não gostamos do simpisons

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  7. wilker jeymisson gomes da silva8:27 AM

    A distância permite a saudade,
    Mas nunca o esquecimento,
    Por mais longe que estejas,
    Sempre estarás no meu pensamento



    wilker

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