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Humberto

Como era homem que o mundo pediu pra nascer naquele exato minuto, naquela cidade árida do Centro-Oeste? Porque o resultado do pedido saiu muito estranho.

Não foi erro na fôrma, nasceu um entre muitos iguais. Mas nasceu estragadinho. Como quando você vai ao supermercado e está escolhendo pepinos, e vê aquele pepino lindo, verde e pepinesco. Vai apalpar o pepino (não me pergunte o porquê de eu ter escolhido um pepino, sometimes a cucumber is just a cucumber), e percebe o pepino tem uma bolota pepínica grudada ao lado. Nem o psicanalista mais bem-resolvido compraria aquele símbolo fálico. Nada de errado com o pepino, mas é estranho.

Estou dando a impressão de que Humberto era um machão, comparando-o com pepinos desse jeito. Também não era efeminado, sua voz grossa de assustar, sua presença estranha. Mas tinha uma delicadeza mais do que feminina nos modos.

Humberto não queria desagradar. É só acordar com a pá virada um dia para entender como as pessoas desagradam. As pessoas não dizem bom-dia, as pessoas não pedem favor, as pessoas saem desleixadas, as pessoas... são pessoas demais e gente de menos.

E usou toda a força com a qual nasceu para forjar uma armadura. Endureceu (não por dentro, porque permanecia frágil, conscientemente frágil, mas Humberto pensava que podia esconder isso dos outros). Endureceu de medo.

Humberto nunca tinha dançado, não em público. Às vezes, quando ainda era criança, dançava em frente à televisão quando via algum artista. Depois odiava o artista. Odiava! Maldito artista! Por quê o artista podia dançar e ele não?

Ele não dançava.

Mas quarenta anos passam como passa uma agulha sobre um disco de vinil – às vezes travando, às vezes furando, mas passando. Humberto engessado, os anos passando.

Mas Humberto quis dançar. Foda-se o Centro-Oeste, pensou ele – mas pensou com outras palavras, foder não fazia parte de seu vocabulário ou de seu repertório de atitudes. Juntou o dinheiro que ganhava na Vigilância Sanitária – seu empolgante emprego de segunda a sexta-feira, quando ele não era o heróico Homem de Gesso, que não sentia nem movia nem dançava – e comprou uma passagem para São Paulo.

Desconhecidos. A Revolução, como Humberto chamou o acontecido daquele dia em diante, foi uma festa. A primeira festa de Humberto. Desconhecidos assustados pelo jeito engessado de ser. Desconhecidos fascinados pela falta de desenvoltura social. Desconhecidos que não davam a mínima. Paulistas.

A música, alta e estranha. As mulheres, girafas, altas e estranhas. Os homens, correndo seminus e pulando em piscinas, estranhos. Humberto se sentiu em casa.

Humberto dançou! E quem disse que ele não sabia dançar?
Bom, quem disse isso provavelmente estava certo. Ele não sabia, mas o que importava era dançar, não importava como.

E o grande feito do Homem de Gesso foi ter se deixado quebrar.
A carcaça pode até voltar com o tempo, pra evitar a criptonita do dia-a-dia. Mas Humberto era um super-herói, e ele dançava.

Mesmo sendo um pepino deformado.

Comentários

  1. Que lindo, Flávio! Lindo, lindo!
    Homenagem bela pra caralho, cara! =´

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  2. Monique12:07 PM

    Muito legal, Flá. Ficou muito bonito. :)

    .

    (Céus, como chega propaganda no seu blog =/)

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  3. Ra, ra, ra, ra, ra, ra, ra... Excelente.

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