Pular para o conteúdo principal

Churrascaria

Eu sou um artista covarde. Eu não me embrenho no mato por semanas a fio para tentar encontrar meu eu. No máximo, gasto uma graninha em terapia para despejar palavras tentando aliviar a pressão.

Porque artistas são os que pintam o cabelo de cores que o cabelo não gosta de ser. Artistas são os que tem o tênis que os artistas gostam de usar. Artistas gostam de música que ninguém conhece.

Não devo ser nem artista, só covarde. Eu teria pavor de cortar a minha orelha. Por deus, eu tinha medo de pegar na orelha de plástico que vinha de brinde no pacote de salgadinho.

Eu não vivo intensamente. Eu não brigo com as pessoas, eu não sou excêntrico. Eu não presto pra isso. Não vivo grandes amores, no máximo troco abraços no sofá, com a televisão ligada na novela. Eu gosto de novela.

Eu não sou um escritor. Confesso que tenho preguiça de ler, às vezes, e que de vez em quando prefiro um livro de auto-ajuda a um clássico. Eu não sou alternativo. Eu leio auto-ajuda.

Eu uso expressões como "estou aprendendo a amar a mim mesmo" no dia-a-dia. Eu escuto música brega - não de propósito, pra apontar o dedo e falar "que música brega". É porque eu acho bonito mesmo.

Eu não sou politizado. Eu acredito que somos todos iguais, mas quero ser melhor que os outros. Talvez nisso eu seja artista.

Eu não sou rebelde. Eu quero agradar todo mundo.

Eu escuto os outros por obrigação. Eu não gosto de ver pessoas inteligentes perto de mim, me faz sentir burro. Nem pessoas talentosas. Elas inspiram, mas distraem os outros das coisas que são realmente importantes (os meus interesses, por exemplo).

Eu não quero trabalhar. Os trabalhos são todos inferiores à minha capacidade intelectual. Todos, sem exceção (talvez haja algum trabalho que eu seja incapaz de desempenhar, mas são trabalhos de gente besta).

Como faz pra ficar rico desse jeito?

Comentários

  1. Monique10:12 PM

    Te amo anyway. Cê não vai conseguir se livrar disso.

    ResponderExcluir
  2. Te amo apesar de tudo isso, filho. Cuide-se.

    ResponderExcluir
  3. Por todos os deuses, me diz que salgadinho vem com orelha de plástico para que eu nunca compre...

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Zombeteiro

Nada é mais cafona em pleno ano de 2025 do que querer um sentido pra vida. Eu não devia falar isso em voz alta, porque meu emprego literalmente é fazer as pessoas acreditarem que algum sentido deve existir e aí passar duzentas sessões correndo atrás disso.  É uma profissão que, para os ingênuos, é muito bonita e faz muito sentido.  Bobagem. Eu gosto de ser terapeuta e acredito de verdade que algum bem eu devo fazer pros meus pacientes, mas esperar sentido disso? Cafona.  O sentido de qualquer trabalho é sair do trabalho e não fazer nada. -- A vida mais sem sentido talvez seja a com mais sentido: ficar aqui por um tempo, trabalhar um tanto, comer algumas coisas gostosas e ocasionalmente passar a mão num gato. Depois, pendurar as chuteiras, sem culpa nenhuma, e dormir pra sempre.  É o verdadeiro paraíso.  Nunca pensei "que ódio, vou tirar uma sonequinha depois do almoço" ou acordei pensando "que experiência horrível essa de me desacoplar da vida por uns minutinhos...