Pular para o conteúdo principal

Maldita Família

Trabalhava no mesmo emprego fazia tanto tempo que nem ligava mais de ter que trabalhar violentamente por três dias a cada mês e passar todo o resto do mês atualizando a página do e-mail para ver se tinha recebido alguma corrente nova. Sentia-se emburrecida quando tinha o impulso de repassar para quinze pessoas qualquer coisa que pudesse lhe dar azar.

Os amigos também eram os mesmos há tempo demais. Não que fizesse diferença, já que ela estava no mesmo lugar há tanto tempo. “Lugar” em espaço, sim, mas também lugar no pensamento. Os amigos também estavam morando na mesma idéia fazia tempo demais.

As conversas eram as mesmas, os e-mails eram os mesmos, os dias eram os mesmos. (a não ser pelos violentos 3 dias do mês em que os relatórios chegavam e precisavam ser analisados num prazo tão possível quanto cruzar um jabuti com uma árvore). Mas tudo bem, ela não se importava com isso.

A culpa ela já tinha descoberto de quem era: de sua maldita família.


Maldita porque todos os que vieram antes dela fizeram alguma coisa de importante. Nada de muito importante, pra piorar, porque aí ela não tinha nem como viver dos louros alheios. Mas faziam alguma coisa.

Nasciam no meio do mato e construíam vida na cidade. Largavam a religião em que nasceram e tornavam-se monges em alguma outra religião qualquer. Viajavam o mundo.

Ela não fazia nada disso.


O bisavô, que fugiu da tribo em que nascera para não ser assassinado, e depois acabou iniciando um vilarejo que hoje é uma cidade tão quase grande que está até pra ter um McDonald’s? Morreu sem jamais ver os arcos dourados e sem nunca ter comido um hambúrguer. Hoje mora numa ruga na testa de sua bisneta.

A avó, que não quis fincar raízes na cidade que seu pai fundara, e que por isso mesmo tornou-se a maior tecelã de sua época em uma cidade do outro lado do país? Morreu sem jamais ver a neta vestida com os panos que idealizara. Hoje mora numa úlcera, no estômago de sua neta.

O pai, que construía os próprios carros juntando peças pescadas em ferros-velhos? Morreu sem ver a vida aprender a guiar seu destino. Hoje mora num corte no joelho da filha - já cicatrizado, anos depois do acidente (quem diria que o banco comprado a preço de banana ia se soltar e arremessar a garota contra o porta-luvas?).

Ela? Ela trabalha três dias por mês e lê e-mails nos outros. Isso não a incomoda, mas os fantasmas que ficaram no seu corpo ainda lhe beliscam, de vez em quando.

Comentários

  1. Espere o novo Fórum ficar pronto e chame esta môça (com circunflexo) para se alistar. A vida dela muda rapidinho.

    ResponderExcluir
  2. Anônimo4:29 PM

    Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  3. é, vida dura a dessa moça... mas, afinal, nós mesmos não nos preocupamos também - mesmo que vez ou outra - se realizaremos algo na vida, ou não!?

    ah se nós (leia-se eu) mesmos não nos cobrássemos tanto!

    abs,
    muta

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Zombeteiro

Nada é mais cafona em pleno ano de 2025 do que querer um sentido pra vida. Eu não devia falar isso em voz alta, porque meu emprego literalmente é fazer as pessoas acreditarem que algum sentido deve existir e aí passar duzentas sessões correndo atrás disso.  É uma profissão que, para os ingênuos, é muito bonita e faz muito sentido.  Bobagem. Eu gosto de ser terapeuta e acredito de verdade que algum bem eu devo fazer pros meus pacientes, mas esperar sentido disso? Cafona.  O sentido de qualquer trabalho é sair do trabalho e não fazer nada. -- A vida mais sem sentido talvez seja a com mais sentido: ficar aqui por um tempo, trabalhar um tanto, comer algumas coisas gostosas e ocasionalmente passar a mão num gato. Depois, pendurar as chuteiras, sem culpa nenhuma, e dormir pra sempre.  É o verdadeiro paraíso.  Nunca pensei "que ódio, vou tirar uma sonequinha depois do almoço" ou acordei pensando "que experiência horrível essa de me desacoplar da vida por uns minutinhos...