Pular para o conteúdo principal

Timidez

Nascer tímido não é, necessariamente, morrer tímido. Tímido seria provavelmente a última palavra que algum amigo meu usaria para me descrever.

Mesmo assim, eu procuro ter alguma privacidade. Algumas coisas privadas, nada realmente secreto. 

O problema é quando você descobre que entrou num bate-papo de internet depois de brigar com o namorado, adicionou algumas pessoas no MSN (nunca mais tinha usado, mas minha mãe frequenta) e que agora todos seus amigos vêem "Flávio Voight adicionou NEGÃO_SARADO_QUER" nas suas atualizações. 

--

O parágrafo anterior foi uma briga entre a primeira e a terceira pessoa, não foi? Na terapia, eu costumo falar "A gente faz" pra tudo que provavelmente só eu faço no mundo. 

Aliás, foi a terapia que me fez escrever esse texto e atualizar esse blog depois de tanto tempo. Não dá pra ficar dois anos fazendo análise e falando que se sente bem quando escreve e... não escrever nunca. 

Eu escrevia mais quando ouvia menos música. Escrevia pra aliviar os pensamentos bobos que nunca iam embora. Comecei a ouvir mais música pra me distrair e acabei passando 20 horas por dia com um fone-de-ouvido na orelha, um Asperger adquirido e a audição cagada. Parei de pensar e não escrevi mais.

Obrigado, Lady Gaga, por ajudar a literatura mundial.

-- 

Falando em terapia, eu estudo psicologia. 

Estranho que esse é o meu blog e eu provavelmente nunca mencionei isso - talvez mencionasse se me dedicasse a atualizar mais de uma vez entre uma passagem do Halley e outra. 

Agora pensa, eu arranjo um paciente um dia e ele procura meu nome no Google - que, até eu arranjar o paciente, já vai ter sido substituído por algum outro sistema de busca com menos jeito de yuppie-com-calças-até-o-umbigo. 

Em vez de encontrar referências de um bom profissional, ele fica sabendo da minha amizade com o NEGÃO_SARADO_QUER. 

--

Sabe aquelas fotos que ficam expostas por mais tempo do que o necessário, e fazem uma rua parecer com uma grande faixa colorida cheia de carros passando?



Então.

Eu sou assim. Não funciono sem super-exposição. Espero que meu namorado me perdoe. 

Comentários

  1. Anônimo4:24 PM

    Sempre fiquei pensando, será que quem faz psicologia faz terapia?

    ResponderExcluir
  2. Anônimo4:54 PM

    acho k devias comecar a cagar menos

    ResponderExcluir
  3. Tem pessoas que escrevem bobagens,
    Tem pessoas que fazem bobagens,
    Mas você meu amigo é um "contador" de besteirices deliciosas
    Poeta de almas
    Que a fonte que alimenta teu dom
    Jorre eternamente
    Parabéns
    Neuza Peres

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Zombeteiro

Nada é mais cafona em pleno ano de 2025 do que querer um sentido pra vida. Eu não devia falar isso em voz alta, porque meu emprego literalmente é fazer as pessoas acreditarem que algum sentido deve existir e aí passar duzentas sessões correndo atrás disso.  É uma profissão que, para os ingênuos, é muito bonita e faz muito sentido.  Bobagem. Eu gosto de ser terapeuta e acredito de verdade que algum bem eu devo fazer pros meus pacientes, mas esperar sentido disso? Cafona.  O sentido de qualquer trabalho é sair do trabalho e não fazer nada. -- A vida mais sem sentido talvez seja a com mais sentido: ficar aqui por um tempo, trabalhar um tanto, comer algumas coisas gostosas e ocasionalmente passar a mão num gato. Depois, pendurar as chuteiras, sem culpa nenhuma, e dormir pra sempre.  É o verdadeiro paraíso.  Nunca pensei "que ódio, vou tirar uma sonequinha depois do almoço" ou acordei pensando "que experiência horrível essa de me desacoplar da vida por uns minutinhos...