Pular para o conteúdo principal

Cânceres


Um objetivo na vida é essencial.
Há quem vague - eu vago - pela própria existência esperando que ocorra algo que justifique a escrotidão do cotidiano. Que vive esperando que ocorra um momento - abracadabra! - em que apareça, magicamente, a mudança.

A questão é que a mudança é um parto. Ou a gente faz uma força imensa, arranca da gente mesmo aquilo que quer conquistar - pagando pelas decisões com que precise arcar - ou aquela bola de mudança-que-quer-ser vai acabar arregaçando nossa buceta simbólica rumo à existência.
E aí você muda porque está com câncer. A gente morre de câncer porque fechou as pernas pra vida. Não há Nossa Senhora do Bom Parto que dê conta de arrancar uma mudança de uma vida cancerígena.

--

História mais real impossível: amiga minha morava com a madrinha, uma mulher de seus quase cinquenta anos, criada pra cuidar do marido e que, esperando por uma fada-madrinha que lhe trouxesse um marido, não conseguiu nenhum.
Sabe-se lá o tamanho da bênção que essa mulher teve por não ter se casado. Foi uma rebeldia à sua própria revelia. Acabou tendo que cuidar da mãe, já que foi criada pra ser criada e não arranjou homem nenhum pra chamar de mestre.

A mãe da madrinha da minha amiga é daquele tipo de pessoa que assiste o Datena. Daquele tipo de pessoa que adora tragédia, que vê o mundo como um perigo, os jovens como perdidos. Sua vida, uma luta.
Ai de você se reclamasse de estar doente perto dessa mulher. Você até ganharia sua parcela de carinho em forma de dó, mas te prepare pra ouvir as mazelas da velha (que vai precisar provar pra você com todas as letras que é uma desgraçada).

Voltando à madrinha da minha amiga (filha da desgraçada), sei que hoje ela está com um câncer horrível na vagina. Minha amiga, outro dia, viu a madrinha batendo a mão na pelve e gritando a plenos pulmões  'EU NUNCA USEI ESSA MERDA E AGORA ESSA BOSTA ACONTECE COMIGO!".

Talvez se tivesse usado, né?

O mais maluco da história é que, além da quimioterapia, o tratamento é esfregar um creme vagina adentro, com a ponta dos dedos. O creme ferve e arranca toda a pele superficial da região e devasta a bucetude da mulher. Uma masturbação forçada e a seco, que por mais dolorida que seja pode ser parte da cura.

--

Uma mulher que conheço tinha uma frase ótima: "O que é do burro vem no cocho". O problema é passar a vida amarrado, esperando que a comida venha, né?
Esperando marido. Esperando carreira. Aguardando significado.

Se o que é do burro vem do cocho, compensa ter objetivo nessa vida? Existe objetivo que não envolva outra pessoa ou alguma condição que a gente não consegue controlar?
A primeira amiga que citei, a que morava com a madrinha, não tem a menor vontade de casar. Quer viajar o mundo sozinha. É dessas pessoas capazes - eu só sou capaz disso da boca pra fora. A língua fica solitária demais sem alguém pra falar - ou pra roçar uma língua na outra. Pra lamber as feridas, talvez.

--

"A língua é o chicote da bunda", dizia a mãe de uma outra amiga minha, querendo dizer que quem julga acaba pagando pelo que falou.

Agora não sei onde que o câncer vai ser em mim, se na bunda ou na língua. Nos dois, quem sabe? Melhor segurar a minha língua antes que eu tome no cu.

Comentários

  1. eddie6:22 PM

    haha. sou como sua amiga e sigo a linha 'vivo sozinho sim, e daí'. o fato é que viver na zona de conforto, como o burro, é bom. Mas poder andar por aí e nós mesmos trilharmos nosso caminho, tem um gosto melhor. Claro, tudo tem um preço e a vida a todo momento nos faz essa pergunta: vale a pena?
    ótimo texto, flavio.

    ResponderExcluir
  2. Encontrei o teu blog por acaso.
    Escrita crua, directa, adorei!
    Vou seguir, se não te importas!

    Quanto ao tema, acho que esperamos sempre que a nossa vida seja aquilo que sonhamos desde miúdos, e depois,fica uma bosta. O povo português tem muito esse hábito de se achar "desgraçado".
    Mas pior que isso, é aquele que vê a desgraça do vizinho e pensa "antes ele que eu"! Misantropia no seu melhor...

    ResponderExcluir
  3. Anônimo1:04 PM

    Otimo um excelente blog vão no meu tambem (www.magicthemedic.blogspot.com é em português

    ResponderExcluir
  4. https://youtu.be/f_Wi_6JIenE

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Zombeteiro

Nada é mais cafona em pleno ano de 2025 do que querer um sentido pra vida. Eu não devia falar isso em voz alta, porque meu emprego literalmente é fazer as pessoas acreditarem que algum sentido deve existir e aí passar duzentas sessões correndo atrás disso.  É uma profissão que, para os ingênuos, é muito bonita e faz muito sentido.  Bobagem. Eu gosto de ser terapeuta e acredito de verdade que algum bem eu devo fazer pros meus pacientes, mas esperar sentido disso? Cafona.  O sentido de qualquer trabalho é sair do trabalho e não fazer nada. -- A vida mais sem sentido talvez seja a com mais sentido: ficar aqui por um tempo, trabalhar um tanto, comer algumas coisas gostosas e ocasionalmente passar a mão num gato. Depois, pendurar as chuteiras, sem culpa nenhuma, e dormir pra sempre.  É o verdadeiro paraíso.  Nunca pensei "que ódio, vou tirar uma sonequinha depois do almoço" ou acordei pensando "que experiência horrível essa de me desacoplar da vida por uns minutinhos...