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Por lá!


“Vai por lá!”
Não basta ser desengonçado com meus passos, eu preciso do inconveniente arrepio que me dá na barriga.
“Vai por lá, não siga em frente.”
É dessas coisas que a gente sente. Como se fosse vontade de fazer cocô, mas não é.

“E se eu não for?”
Aí o frio na barriga ganha sentido. Maldita hora em que, pra não me sentir idiota ou louco, pra não pensar que sou um idiota manipulável pelo próprio pressentimento, eu decido não obedecer a sensação.
Aí é assalto, é o pé que torce no meio-fio, é perder o ônibus.

“Vai que dá tempo!”
Aí eu não perco o horário.
“Vai nesse ritmo!”
E aí eu não me atraso.

“Fica quieta!”
Eu digo pra voz, que na verdade é um frio, que na verdade é um aperto, que na verdade é uma coisa estranha na barriga.
“Vai por lá!”
Ela insiste e quem se cala sou eu.
Vou por lá.

Aí eu encontro um bom amigo. Que eu acho dinheiro na rua. Que eu chego bem a tempo de impedir alguma coisa que não deveria acontecer.

“Você é louco!”
(Essa voz vem da minha cabeça, e não é tão ameaçadora quanto a que vem da minha barriga. A ordem de “ir por lá” é sensação, voz que me acusa de loucura é pensamento.)

Mas pensamento não tem vez nessas horas.
São tantos “Vai por lá” que me levam para lugares inesperados (e bons), que eu não me dou mais ao direito de obedecer.

“Você é louco”
(a cabeça repete)

Sim, sou louco. Mas vou por lá.

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