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Oriente, rapaz

"Fiz uma merda e acabei assinando dois anos disso."

Não era muito fácil um palavrão sair da boca do meu pai, mas foi essa a resposta quando lhe perguntei porque algumas revistas estavam chegando lá em casa. A merda, para ele, foi assinar a revista Viagem e a Veja num pacote promocional.

Para mim, foi o paraíso: internet na época era luxo e eu lia qualquer coisa que viesse parar na minha frente. Uma das coisas que veio parar na minha frente foi justamente uma Viagem com uma matéria enorme sobre Tóquio. Fiquei - e ainda sou - fascinado pela cidade, mesmo sem nunca ter ido pra lá. Isso deve ter sido por volta de 2000. Uma das fotos da matéria era de uma pessoa, sentada no meio da calçada, com uma caixa de papelão cheia de celulares na sua frente. A legenda era alguma coisa como "Aqui, celulares custam muito barato. Compra-se na rua, para usar de chaveiro."

Celular era artigo de luxo luxíssimo na Pato Branco daquela época. Meu coração pré-adolescente ficou cheio de vontade de ir para Tóquio, roubar a caixa do mendigo e vir vender celular no Brasil.

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Eu sou um ocidental desinformado e mal viajado, e por isso mesmo não entendo muito bem como funcionam as coisas no Oriente. Minha visão é toda baseada nos orientais que estão ao meu redor desde que comecei a trabalhar no centro de Curitiba. Não sei exatamente quais são coreanos e quais são chineses, mas sei que é impossível comprar um produto popular por aqui sem ter que conversar num dialeto que misture coreano-ou-chinês com o português.

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Ainda assim, a maior barreira vai além da língua. O que me encanta nesse povo - e me sinto mal de generalizar tudo num povo só, mas é porque eu sou ignorante e não sei diferenciar os países - é a mistura de simpatia com grosseria com que os clientes são atendidos.

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Evidência 1: A placa na marquise dizia "PASTELARIA" com letras bem grandes. Na calçada, um quadro em que estava escrito com giz: "Pastel 1,50". Achei que isso fosse suficiente para imaginar que o estabelecimento vendia - segurem o fôlego - pastel.
- Moço, me vê um de queijo por favor?
- NÃO TEM PAITÉU. - disse o senhor que atendia o balcão, como se cada sílaba fosse um golpe de espada ligeiro e fatal.
- Mas nem de outro sabor?
- CABÔ PAITÉU.
- Nem pra fritar?
- NÃO TEM PAITÉU! - ele gritou.

Saí de lá chateado, não só por não poder ter me fartado de uma delícia gordurenta, mas porque foi como se eu tivesse ultrajado o senhor que me atendeu. Pôxa, não era culpa dele de ter acabado o pastel. Ousadia minha pedir.

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Evidência dois: Roupa em lojas populares de coreanos-ou-chineses é muito mais barata. Orçamento de estudante só permite roupa nova de vez em quando, e ainda assim, só se não for muito cara.
Passei horas olhando pela loja até decidir qual jaqueta comprar. Uma funcionária, brasileira, fez o maior esforço pra me atender bem. Quando escolhi, ela me levou até o caixa.
Uma mulher de cinquenta anos grita com ela:
- ELE SÓ VAI LEVAR ISSO?
A moça fez que sim, era só isso. A dona da loja, frustradíssima, gritou na minha direção:
- SÓ VAI LEVAR UM?
- Sim, só um.
- COMPRA DOIS.
- Não, só preciso de um.

Ela me fuzilou com o olhar, gritando bem lentamente:
- LEVA. DOIS.

Levei um só. Mas só volto naquela loja quando tiver dinheiro pra dois ítens.
(mentira, lá é barato demais, volto assim que precisar de outra roupa)

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Evidência três: Dependo de comer marmita durante a semana, pra poder almoçar no trabalho e economizar tempo. Como já estava quase morrendo de tédio de comer sempre no mesmo lugar, comecei a marcar na cabeça lugares que vendam marmita perto do escritório.

Era dia de ir num restaurante que abriu faz pouco tempo aqui, de comida CHINESA E BRASILEIRA, como dizia na porta, que também tinha um cartaz dizendo "COMER AQUI 13,00 LIVRE MARMITEX 8,00". Entrei e pedi pelo marmitex.

- MARMITEX? PUQUÊ NÃO COME AQUI?

Inventei uma desculpa qualquer pra não dizer que era porque o marmitex era mais barato.

- TÁ. GOSTA DO QUÊ? - gritou, sorrindo, a mulher que me atendeu, para saber o que colocar na minha quentinha.
- Posso eu me servir?
- NÃO PODE. EU SILVO. GOSTA FEIJÃO?
- Gosto. - e ela botou feijão.
- GOSTA ARROZ? - e botou arroz sem que eu respondesse.

O resto da marmita foi servida à minha revelia.
- VOLTA MAIS VEIZ. - disse ela, sorrindo.
- Volto sim, pode deixar.

Acho que a felicidade de ter ganho um novo cliente ferveu no coração da moça, e ela continuou a gritar sorrindo:
- TOMA BANANA. - e me deu um copinho de chá com um pedaço de banana caramelizada.

Podem gritar, podem não me dar pastel, podem fazer o que eu quiser. Mas enquanto eu puder fazer um bom negócio, ganhar banana caramelizada de brinde e uma história pra contar depois, vou permanecer cliente.

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Acabei de perceber que comecei falando de Tóquio e fui parar num discurso sobre coreanos e chineses. Eu sou a versão tupiniquim do turista que pensa que Buenos Aires fica no Brasil. Já falei que é por ignorância, né?

Comentários

  1. Eu já aprendi a diferenciar coreanos dos chineses dos japoneses, depois de conviver com vários deles em viagens longas, encontrar em convenções ao longo da vida. É uma habilidade que vou levar para a minha cova.
    Ou vender por um preço bem caro.

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  2. Que saudade!

    Tinha esse restaurante chinês e brasileiro no térreo do meu prédio aí em Curitiba. A gente ia pra comprar só carne e salada, cozinhava arroz ou miojo em casa. Mas às vezes só tinha carne doce. Porco doce, gado doce, peixe doce.

    Irrrca.

    E não eram chineses, acho, eram coreanos ou outra coisa... eles tinham um bebê a mãe carregava nas costas, com um pano! Era lindo!

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