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Espetinho e parmesão

São duas e trinta e cinco da manhã, e eu passei a última hora toda deitado na cama e segurando um espelho na mão, tentando adivinhar a cara que eu vou ter no meu velório.

Fiquei percebendo no espelho como a gente passa a eternidade numa posição estranha, a cabeça jogada pra trás, os olhos meio sem saber pra onde vão, o corpo alinhadinho como provavelmente nunca foi em vida.

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Essa história toda de morte é porque fiquei sabendo ontem que um amigo meu da adolescência foi assassinado dois meses atrás. Dois meses atrás, e eu fiquei sabendo agora. Tá certo que não era um amigo tão próximo e que fazia anos que a gente não conversava, mas ainda assim...

Não cheguei a ficar tão triste, não tanto quanto fiquei perplexo com a história toda. Fiquei sabendo da morte do meu amigo depois que me mandaram uma notícia de jornal. Talvez eu esteja me confundindo, mas foi alguma coisa envolvendo uma facada na cabeça e dois espetos de churrasco enfiados no corpo.

Hoje você almoça, amanhã o churrasco é você.

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E tem tudo a maior pinta de crime de ódio, cidade pequena de interior, homofobia correndo solta. O crime tá até agora sem suspeito nenhum. Provavelmente sem investigação nenhuma, também.

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Aí minha amiga me conta da cena que assistiu ontem, da janela do ônibus: uma moça tenta atravessar a rua correndo, atravessando entre os carros que esperavam no semáforo.

No corredor entre um carro e outro, passa uma moto e - coincidência terrível - engata o guidão bem na alça da mochila da moça, que foi arrastada por vários metros.

A moça não morreu, só ficou igual queijo parmesão, toda ralada.

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Espero que no meu velório eu possa ficar com os olhos abertos. Existe uma superstição de que o morto só fecha os olhos quando finalmente vê a pessoa da qual precisava se despedir antes de ir.

Eu gosto dos meus olhos. Mesmo quando o corpo está meio abatido, parece que tem um pouco de vida neles. Espero que a pessoa aceite uma despedida olho-no-olho mesmo.

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Existe lembrancinha de nascimento de criança, de casamento, de formatura, de tudo. Espero que, quando chegar minha vez, façam uma miniatura minha de biscuit: eu dentro do caixão, com os olhos abertos e sorrindo, quem sabe fazendo joinha com a mão.

Pelo menos as pessoas teriam uma lembrança legal de mim. Mesmo que fosse só um souvenir.

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