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Obras de arte

Quando eu estava na sexta série, estudava em um colégio que era ao mesmo tempo público e católico, por causa de uma parceria da prefeitura. Ao mesmo tempo um colégio muito rígido e muito aberto à experiências.

Eram meses com música clássica tocando na sala de aula (não deu certo, as caixas de som eram ruins e o som era alto demais), outros com ioga na aula de educação física (fantástico, me ajudou a passar em vários vestibulares em que eu não tinha interesse).

Uma das poucas coisas realmente católicas do colégio era a necessidade de fazer uma prece antes de começar a aula. Um professor de matemática (um dos poucos que tiveram a habilidade de me fazer aprender qualquer coisa em matemática em toda minha vida) era um pouco mais resistente e mudou o hábito nas aulas dele: todos os dias, um aluno precisava citar uma frase inspiradora antes do começo da aula.

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Éramos uns 40 alunos na sala e, por isso, cada um se revezava na função fazendo cada aluno falar três ou quatro vezes por ano. Como ainda não existia o Facebook para vulgarizar frases da Clarice Lispector, a gente se virava como podia para arranjar as frases.

Não, ler livros para achar frases interessantes não era uma opção para a maioria de nós. O negócio era copiar e recopiar frases uns dos outros. Na última página do meu caderno, guardei uma coleção de frases para usar nessas aulas.

No final do ano, o professor reclamou comigo que eu sempre escolhia a mesma frase: "A arte da vida é fazer da vida uma obra de arte", do Ghandi.

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Acho que minha fixação por arte começava por ali.

E é estranho que eu tenha escolhido dar tanta vazão à minha vontade de escrever. De um tempo pra cá, assumi que uma das coisas que eu sou é "escritor". Ainda não falo isso quando me apresento para alguém - alguma parte minha ainda tem vergonha e acha que ser artista é boçal.

Acontece que, fora um concurso ou outro, a única coisa que eu escrevo regularmente é esse blog.

Falar da própria vida a cada quinze dias é arte?

Eu fiz da minha missão na vida a expressão máxima: vir de uma criação religiosa que me oprimia tanto e me fazia sentir um lixo por ser o que eu era acabou virando do avesso. Aprendi que assumir completamente tudo o que eu sinto e sou, por mais vergonhoso que seja, acabou virando minha força.

Parece que hoje eu me oriento na vida sempre por ir na direção que me envergonha mas me encanta. Lutar contra minhas vergonhas acabou virando meu norte e minha arte. Escrever, que é o único dom que eu nasci tendo, a única facilidade que sempre esteve ao meu lado na vida, virou uma maneira de expressar isso.

Quando eu escrevo, eu me torno mais eu. A obra de arte que eu faço da minha vida é essa.




Comentários

  1. Os blogs são fundamentais como uma forma de usar a inteligência coletiva para superar a manipulação da opinião e valores feita pela mídia corporativa.

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  2. Os blogs são fundamentais, pois neles encontramos uma infinita de conhecimento.

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