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A palavra errada

Escolher as palavras corretas para transmitir exatamente o que você está sentindo é provavelmente a parte mais difícil do ofício de escritor. Uma palavra errada, uma margem que se deixe a uma interpretação dúbia já é capaz de derrubar um texto erguido com muito carinho.

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Não que o texto da Black Friday, de sexta passada, tenha sido escrito com tanto carinho assim, mas fiz uma piada que acabou se tornando o foco de quase todos os comentários do texto. Brincando, traduzi o "black" da sexta-feira como "afro". Uma piada sem muita graça insinuando uma tradução ruim, que já na hora de escrever o texto me incomodou a ponto de querer tirar. Resolvi manter a piada.

Por conta de um link na página do Facebook do Tecnoblog, esse foi o texto mais lido e comentado que eu já escrevi. Recebi muitos elogios, muitos chamamentos de burro e alguns de racista.

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Na terapia, uma vez, comentei que uma atitude que tive com uma pessoa me dava remorso.

A terapeuta tratou a questão com tanta seriedade que só então me caiu a ficha que remorso, para mim, é só sinônimo de arrependimento, e que ela pode ter interpretado a palavra "remorso" como se eu ficasse na cama, suando frio, sofrendo e tendo flashbacks do que fiz, de tanta angústia.

Não era o caso.

Besteira minha ignorar que o significado das palavras depende tanto de quem as transmite quanto de quem as recebe. Cada leitura e cada experiência relacionada a cada palavra lhe dão um significado único para cada sujeito.

O dicionário só serve para que a nossa pátria não vire uma Torre de Babel. Ajuda a fazer os significados de cada um girarem ao redor do mesmo eixo.

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Por isso não é minha intenção justificar o uso da palavra "afro" e fazer constar que não sou racista. Isso não serve para nada. A questão que ficou comigo foi "será que só a minha intenção por trás da palavra deu conta de chegar ao destinatário?".

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Quase todo o humor que temos disponível na TV (ou nas redes sociais, onde todo mundo é um comediante) esbarra nessas questões. Humoristas às pencas reclamam que antigamente se fazia piada de negro, de gay e de loira e que isso nunca foi visto como preconceito.

É um problema de perspectiva: acredito mesmo que as intenções de uma piada com um grupo minoritário possam não ser preconceituosas. Acredito também que, às vezes, uma punchline bem sacada possa se sobrepor à moral.

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Mas é o outro lado do espectro que deve ser focado. De quantas piadas de viado eu já ri, só pra mostrar para quem contava a piada que eu não tinha problema nenhum com isso? Que eu era um viado legal, que não via problema na piada deles?

E que, por fazer isso, abaixava a cabeça em submissão e dizia amém a cada uma das piadas que emitiam a mensagem de que era a Pessoa Padrão de Deus®, homem, branco, heterossexual e cristão, que detinha o poder, e que o gay tem mais é que ser objeto de riso mesmo?

Questionando a piada, eu questionaria o poder.

E aí eu não seria mais julgado por ser homossexual: seria julgado por ser um homossexual que não sabe rir de uma simples piada. Na piada residia o poder.

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E é por isso que as minorias enchem o saco. Qualquer uma delas.

Elas questionam aquilo que nos faz rir, e o riso é o que temos de mais puro. É a resposta emocional mais direta e mais rápida, a mais sem filtro que podemos ter.

E é por isso que o riso nos denuncia. Quando tiramos o filtro que colocamos em nós mesmos para não parecermos preconceituosos, o que aparece?

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Acho muito interessante o nome dado ao dia em que se celebra a cultura afro no Brasil. "Dia da Consciência Negra".

Porque fala dos negros tendo consciência do valor que têm ao mesmo tempo que fala da puta consciência negra (no sentido de turva, pra ficar bem claro) que nós, brancos, temos.

E que precisamos passar a limpo, pra ficar negra no sentido bom - de cor e de cultura.

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Aí o papagaio do judeu disse "Comi o cu do preto viado!", e a loira não entendeu nada.

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Eu posso controlar as palavras que escrevo só através da minha própria experiência, e a minha experiência não é capaz de entender todos os lados de todas as situações. Por isso fiz questão de explicar a piada - e mesmo explicando, de pedir desculpas a quem eu possa ter ofendido.

Que é pra não ficar com remorso.

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