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Alfajores

Fui visitar meus pais e, ao chegar em casa, dei de cara com dezenas de pacotes de alfajores, azeites, frisantes e frescuras em geral compradas a preço de banana na Argentina.

A quantidade de doces disponíveis me deixou feliz, mas a situação em si me deixou estranhamente... triste. É esquisito poder comprar coisas muito baratas sabendo que o único motivo de você poder fazê-lo é porque algumas pessoas estão sem dinheiro para comprar nada.

A tristeza passou com o terceiro alfajor.

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Um teste para saber o quanto você se deixa afetar pela pressão social: Você está na rua, debaixo de uma precipitação forte demais para ser garoa e fraca demais para ser chuva.

Você foi esperto e carregou um guarda-chuva consigo quando saiu de casa pela manhã. Decide se proteger e abre o guarda-chuva. Segue caminhando orgulhoso de si mesmo.

Entretanto, várias pessoas pelas quais você passa no caminho estão com um guarda-chuva na mão, só que todos fechados. Todos que passam por você olham para o seu guarda-chuva aberto, olham para a sua cara, olham para o guarda-chuva de novo, olham para baixo e seguem em frente.

Você fecha o guarda-chuva ou não?

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O que eu percebo em algumas pessoas da minha idade pra menos é que não se tem muita perspectiva do que é aperto financeiro de verdade. Quando eu nasci, o Plano Collor tomou conta da poupança que meus pais fizeram por anos para poderem ter o segundo filho. Minha mãe ficou putíssima, porque pensou que dessa vez ia ter grana para usar fralda descartável.

O que é uma depressão pós-parto perto de uma depressão pós-fralda, né?

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Alguns anos mais tarde, já com a situação bem mais tranquila, eu lembro de algumas reuniões de família em meu pai falava que precisávamos diminuir as despesas. Não adiantava. Estávamos todos apegados demais ao supérfluo para fazer concessões de verdade.

"Então ficamos assim: cortamos todos os HBO da DirecTV, e pay-per-view só no final de semana. É assim, tem que apertar o cinto!".

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Uma vez atravessei a rua para não precisar passar por um ponto de ônibus cheio de gente. O outro lado da rua era completamente deserto. Se alguém se desse o trabalho de olhar para a frente, poderia me ver sem obstáculo nenhum - mas pelo menos eu não cruzaria com ninguém.

Exceto que... cruzei. Com um quero-quero. Que dava rasantes na minha cabeça e gritava (grasnava? grunhia? o que um quero-quero faz?) desesperadamente, enquanto eu corria batendo com as mãos na minha cabeça.

O "Gasp!" feito por todas as pessoas do ponto de ônibus foi audível a quilômetros.

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Uma colega de trabalho me contou que algum tempo atrás foi visitar uma família pobre para cadastrá-los em um programa social. Chegando lá, deu de cara com uma geladeira velha, mas brilhosa; um fogão antigo, mas sem um pingo de gordura. A casa toda era simples, mas nada faltava.

Até que ela viu, no quintal da casa, uma buraco cheio de cinzas e com alguns gravetos empilhados.

"A senhora vai fazer churrasco?", perguntou minha colega.

"Não, não, é aí que eu cozinho."

Os móveis eram todos inúteis, que a dona da casa encontrava na rua, limpava até ficarem em estado de novo e trazia para dentro de casa. Talvez para que a falta e a pobreza não ficassem tão explícitos. Talvez por vergonha de não ter aquilo que tanto se diz ser necessário para ser feliz.

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Aí você escuta alguém reclamando do Bolsa Família e quer matar.

Mas tudo bem. É só comer um alfajor que a vontade passa.

Comentários

  1. Anônimo10:10 AM

    NAO COMPREM LENTES DE CONTATO DESCARTAVEL VOCE CORRE O RRISCO DE CEGAR OBRIGADO

    ResponderExcluir
  2. Anônimo10:18 AM

    UM EXEMPLO DE VIDA UMA GAROTA CEGOU DE UMA LENTE DE CONTATO , QUE DEU UMA IRRITAÇAO NO OLHO DELA .ELA TIROU RAPIDAMENTE E LAVOU O OLHO COM SORO MAIS NADA ADIANTOU CEGOU DESSE OLHO JA FEZ 2 TRANSPLANTES MAIS NADA ADIANTOU VIVE CEGA DE UM OLHO ATE HOJE , PRESTE BEM ATENÇAO ANTES DE VC COMPRAR UMA LENTE DE CONTATO PRINCIPALMENTE DESCARTAVEL VC NAO SABE O QUE PODE ACONTECER MILHARES DE PESSOAS JA CEGARAM DEVIDO O USO DE LENTES SO QUEM SAI PERDENDO FOI QUEM COMPROU E CEGOU . OBRIGADO

    ResponderExcluir

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