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A Fraude e a Foca



Eu sou um péssimo nadador, mas persistente o suficiente para acreditar que, eventualmente, vou ser enquadrado como ruim ou, com sorte, medíocre. Uma vez tentei fazer uma travessia a nado no mar. Não dei conta de terminar o feito: nadei quatrocentos metros rumo à linha de chegada antes de entrar em pânico. Achei que não seria capaz de completar a prova e nadei os mesmos quatrocentos metros para voltar para o lugar de onde saí.

A prova era de setecentos e cinquenta metros. Seria menos trabalho terminar a prova do que perder tempo entrando em pânico e voltando.

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Seja por persistência ou chatice, voltei ao mar para tentar nadar uma segunda vez. Pleno inverno. O céu de Santa Catarina estava nublado e a água, geladíssima.

Não era, definitivamente, as condição ideal pra nadar. Enquanto criava coragem com os pés na areia, olhei para o lado e vi algo que parecia ser um cachorro.

“Que gozado, um cachorro nadando no mar!", pensei. “Se um cachorro consegue nadar nesse frio, eu também consigo”. Encorajado pelo cachorro-herói, segui em frente.

Braçada após braçada, fiquei lado a lado com meu colega-cão. Comecei a prestar mais atenção nele. “Que bigode esquisito ele tem”, pensei. “Que cachorro mais gordo”, pensei. “Que nadadeiras estranhas!”, pensei.

Foi quando caí em mim: aquilo não era um cachorro. Era uma foca.

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Ou pelo menos essa é a história que eu conto para todo mundo.

Pois então, todo mundo: saibam que eu não nadei com foca nenhuma. A história verdadeira é que, algumas horas antes de entrar no mar para nadar, estava caminhando pela orla com uns amigos e vi o bicho preto-petróleo brincando na água.

Sim, eu pensei que era um cachorro. Sim, eu levei um susto quando vi que a água estava gelada a ponto de ter uma foca nela. Não, eu não nadei com uma foca. Infelizmente.

Eu sou uma fraude.

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Acho que a parte mais triste da história não é tanto o fato de eu ter distorcido a verdade, mas sim a razão pela qual eu o fiz. Por mais que, dessa vez, eu não tenha tido um momento de pânico enquanto nadava, como da primeira vez que tentei nadar no mar, isso me pareceu pouco. Eu não me contentaria se eu chegasse de viagem e, ao encontrar com o porteiro do prédio, a seguinte conversa acontecesse:
- E aí, como foi na praia?
- Genial! Acredita que eu nem entrei em pânico?

Ele ficaria sem entender nada:
- Uhn, que... bom, né?
- Ótimo! - eu diria.
- Quantos quilômetros você nadou?

Minha vez de ficar constrangido:
- Quilômetros? Eu nadei setecentos... metros.

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Inexpressivo demais, não? Eu posso ser um péssimo nadador, mas jamais admitiria ser pouco expressivo. O que explica o surgimento da história da foca. E esse é meu mea culpa. Sou um corrupto. Me corrompi e inventei uma fantasia em alto mar, eu e uma foca, para salvar minha história de ser desinteressante.

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Para concluir: quando cheguei de viagem, fui procurar imagens na internet para ver se o bicho com quem não nadei era realmente uma foca. Descobri que, na verdade, aquilo se tratava de um leão marinho.

Ainda assim, contei a história com uma foca como protagonista. É minha culpa que um leão-marinho não soa bem? É um bichinho adorável, mas inexpressivo demais para fazer juz ao seu título de leão. Precisei reescalar o papel para a história ficar melhorzinha.

Não adianta, eu sou irrecuperável. Me botem na cadeia antes que seja tarde.

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