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Na redoma

Até agora, minha vida foi mais ou menos um trajeto fácil. Um momento ou outro de dificuldade maior, um draminha ocasional que me faça encher a boca pra dizer "enfrentei tal situação", cheio de orgulho. Ainda assim, quase tudo se resolveu facilmente. Sou branco, homem, de classe média e com uma saúde de ferro.

A situação em que boa parte da população mundial gostaria de estar.

Dei mais sorte ainda: consegui uma bolsa de estudos numa faculdade boa, meu pai pôde me ajudar a me manter numa cidade distante sem sacrifícios enormes, pude fazer um estágio na área social que, se não pagava bem, cobria meus supérfluos e me deixava arrotar algum grau de independência.

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Minha mãe é uma figura. Quando levei o primeiro chifre da minha vida - se você nunca foi traído, pegue sua senha e vá para o final da fila: um dia você vai ser. Idosos e gestantes tem direito a atendimento preferencial - telefonei para ela que, sem titubear, passou oito horas no ônibus seguinte, só com a roupa do corpo, para consolar o filho que sempre lhe tratou a pancadas.

Enquanto ela passava uns dias aqui, precisei levá-la comigo para a faculdade. Enquanto conhecia meus amigos, largou a seguinte: "O Flavinho foi educado primeiro em inglês... fala super bem, você precisa ver."

Pura balela. Aprendi inglês cedo sim, mas nada de diferente de qualquer criança cuja mãe dessa aulas no CCAA. Ela só estava tentando maquiar a história pra tentar me fazer parecer mais especial enquanto eu estava na fossa.

Morri de vergonha, mas agradeço o chifre pela oportunidade de ver como minha mãe é bacana.

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Agora estou trabalhando em shopping center, vendendo celulares. Eu, que uso um celular de meia década atrás. Eu, que comprei um HiPhone. Eu, que odeio shopping centers.

Adorei os estágios que fiz no decorrer da faculdade. Adorei trabalhar com pessoas privadas de liberdade, adorei trabalhar com drogadição, adorei defender aquelas pessoas que ninguém defende.

Mas agora, sou vendedor em shopping center. Mais ou menos o quê, um terço da população brasileira faz isso pra sobreviver?

Pois eu, euzinho, estou apanhando. Não conseguindo levantar pela manhã sem antes enfiar a cabeça no travesseiro e largar um gemido tão profundo quanto a vontade de ganhar meu salário no fim do mês.

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Ouvi de várias pessoas "Nossa, mas vendedor de shopping? Tu é bom demais pra perder tempo fazendo isso".

Mas o aluguel corre e não dá pra ficar de braços cruzados esperando que caia do céu uma oportunidade a altura do neném em que mamãe passou talquinho, dá?

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A questão é: eu não me sentia necessariamente desconectado da realidade. Não me achava fora de contato com aquilo que as pessoas fazem.

As pessoas que não passaram na entrevista que eu passei por não falarem inglês, ou por não terem tido a mesma chance de ter um bom estudo, ou por chegarem atrasadas na entrevista porque o ônibus atrasou, provavelmente fariam um trabalho muito melhor que eu - que estou mais uma vez vendo uma dificuldade enorme em uma coisinha pequena.

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Não que o meu trabalho seja desleixado. Longe disso, dou o meu melhor para garantir o feijão na mesa. Mas precisar sair da redoma de proteção financeira que eu tive até agora está sendo desafiador.

Faz falta poder ter disposição no final do dia para ler um livro, ou escrever um texto. Ainda assim, de um jeito estranho, a dor insuportável nas pernas no final do dia é gratificante.

No final, alguma coisa a gente sempre tira das experiências que tem. Mesmo que seja um chifre. Mesmo que seja um desempenho ruim num emprego que você precisa pra pagar as contas. Mas olha só, mundo real: eu te respeito.

Comentários

  1. NAO SEI O QUE DIZER.... MAS MUNDO REAL: EU TE RESPEITO... EU QUERO É DAR UM TIRO NO MEIO DA TESTA O MUNDO REAL, HEEHEHE SORRY MAS FOI MAIS FORTE DO Q EU...

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