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Superstições

Minha família nunca teve dessas superstições de fim de ano. A única tradição que tínhamos no dia 31 de dezembro era reclamar do Show da Virada da Globo e contorcer o pescoço na sacada para ver os fogos da praça da cidade.

Não que eu não tivesse as minhas superstições:  "Vou aproveitar que tô comendo uva e mandar umas sete pra dentro", eu brincava. Gargalhava. E contava bem certinho sete, que era pra dar sorte.

"Peguei por acaso no guarda-roupa", eu falava, enquanto vestia a única roupa branca que eu tinha.

Coisa de supersticioso que não se assume.

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Esse ano, pela primeira vez, resolvi bancar que gosto desses rituais bestas. Gosto mesmo, e assumi minhas bichices de fim de ano.

Preparei todo um visual: camisa amarelo ovo, que é pra assumir que eu quero dinheiro, camiseta branca, por baixo, para garantir a paz, e uma calça jeans, porque eu não tenho nada de colorido para a parte de baixo do corpo.

Ficou faltando algo vermelho. Nada no meu guarda-roupa combinava com o que eu tinha para vestir e tinha a cor que simboliza a paixão.

Ensaiei outras opções. Tentei amarrar uma fita vermelha no pulso, nada deu certo. Desisti. Quer saber? Vestido parecendo uma tenda de circo, de tantas cores, que eu não ia atrair paixões mesmo. Que viesse um 2012 desapaixonado.

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Aí eu botei a mão no bolso e a capinha do celular, não sei de que jeito, fez um corte no meu dedo indicador. O corte foi surpreendentemente fundo e sangrou mais do que eu imaginava que um dedo poderia sangrar. Tá aí a peça vermelha do meu visual.

Não adianta planejar: a paixão é inevitável.

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