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Alexanders

Outro dia vi um anúncio de um rapaz que pedia mais ou menos o seguinte: "Procuro um homem de 45 a 65 anos que me deixe morar com ele, me sustente e me faça de mulherzinha. Que eu use roupas de mulher enquanto estiver em casa e que traga amigos, suados depois de jogarem futebol, para me comer."

Tão específico, o rapaz, que me condoí por ele. Espero sinceramente que alguém tenha lhe respondido o anúncio - e que os amigos desse cara joguem futebol, e não vôlei.

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Não vou entrar nos méritos das frustrações que algumas fantasias trazem quando são, finalmente, realizadas, e nem como certas fantasias são muito melhor aproveitadas enquanto fantasias do que como realidades.

Fico pensando em como essas pessoas faziam para se encontrar antes da internet. A possibilidade de se comunicar com qualquer pessoa do mundo trouxe uma coisa bacana para os excluídos. A chance de achar alguém compatível com a própria loucura aumentou.

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Ele ficou órfão aos quatro anos de idade. Ela perdeu toda a esperança no amor romântico depois de descobrir que o rapaz de quem era noiva há quatro anos mandava mensagens para outras mulheres falando que "hoje a baleia vai ficar em casa".

Ele se sentia incompreendido nos seus relacionamentos e tinha vergonha do que desejava. Ela jamais voltou a se sentir capaz de confiar no amor de alguém.

Encontraram-se, os dois, numa sala de bate-papo.

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Três semanas de conversa, criaram coragem para se encontrar. Ela, decidida a ter pelo menos uma boa noite de sexo. Ele, decidido a se controlar para não assustar a moça de papo bacana  - com quem já fantasiava a possibilidade de um namoro.

Comeram pizza. Horas de risada. Ela fascinada pelo jeito de garoto tímido dele. Ele, encantado por como ela era capaz de dominar a conversa.

Ela, seis alexanders, pra enfrentar a insegurança e curtir o sexo casual.

Ele, sete caipirinhas, para ter o que fazer com a boca nos momentos de silêncio.

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Foram para a cama. Deram-se uns beijos esquisitos no começo, até que um pegasse o ritmo do outro.

Completamente encaipirado, ele esqueceu o plano de se controlar. "Foda-se. Se ela me estranhar por isso, pelo menos vou ter curtido a noite."

Se soltou. Mamou profundamente nas tetas dela. Lambeu-lhe o umbigo. Olhou-a nos olhos.

"Cuida de neném", disse, com os olhos nos olhos dela, como um garoto pidão. "Cuida, mamãe?"

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Ela ficou estarrecida. Mais de cem bilhões de neurônios no seu cérebro, todos eles ecoavam um grito silencioso de "Que porra é essa?".

Mas, por causa dos seis alexanders, ela entrou na brincadeira.

Afagou-lhe os cabelos. Esfregou-lhe os peitos na cara, dando-lhe de mamar. Abraçou-o carinhosamente com todo o corpo, o rosto dele afundado nos seus pentelhos.

"Mamãe tá aqui por você".

Gozaram. Dormiram.

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Ele acordou primeiro.

Abriu um olho, viu que ela ainda estava dormindo. Fingiu voltar a dormir.

Ela fez a mesma coisa. Ficaram, por duas horas, acordados e de olhos fechados, os dois constrangidos demais para tomar a frente em levantar da cama.

Ela desistiu de enrolar. "Foda-se", pensou, e fez um cafuné no homem ao seu lado, que dormia como um bebê - depois de ter trepado como um. Ele, sorrindo, fingiu que acordava.

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Ele nunca foi tão feliz na cama quanto naquela noite. Nunca teve coragem de confiar numa mulher como confiou naquela noite, ao realizar seu desejo de ser cuidado. Não sentiu vergonha do que quis.

Ela, por sua vez, achou conforto na fantasia esquisita dele. Pela primeira vez em muito tempo, viu verdade nos olhos de um homem. Sentiu-se como se o seu amor fosse necessário.

Amaram-se e curaram-se, um à dor do outro.

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Sim, a chance de encontrar um serial killer que arranque suas córneas com um garfo e as coma na sua frente também é muito maior com a internet.

Mas, como uma grande mão que embaralhou o mundo e transformou em próximas as cartas que antes eram distantes, a internet nos aproxima de nossos iguais.

Seja para dividir histórias sobre criar gatos persas, seja para contratar um travesti que se vista de freira, use salto alto e mije na sua cara, estamos mais perto uns dos outros.

Como se tivéssemos bebido um alexander virtual.

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