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Marchinhas

É impressionante ver como, no carnaval, toda a publicidade se baseia em marchinhas. Mais ainda quando se trata daquela publicidade bem condescendente, querendo nos instruir - nós, o pobre povo ignorante.

A gente, que fica na frente da TV e não no meio desse povo, é brindada com marchinhas como "Quem cala/ consente/ Não aceite nada errado/ Com criança e adolescente" e "Bateu vontade de fazer xixi?  / Não faz aqui, não faz aqui!" - tudo com uma melodia bem grudenta, que é pra aprender bem a lição.

Acho uma pena que isso aconteça só no carnaval.

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Pensem bem: se uma marchinha de carnaval tem efeito moralizante até nas bexigas dos foliões, por que não doutrinar nosso povo com marchinhas contra todos os tipos de crime?

Com a melodia adequada, poderíamos até causar uma queda dos índices de homicídio.

Consigo até ver: está lá o cidadão com uma meia na cabeça e uma metralhadora na mão (a versão atualizada do clichê de uma câmera e uma ideia), prestes a cometer o disparo, quando sua vítima começa a cantarolar o jingle que viu na TV: "Mas que bacana/ Mas que barato/ Não cometa assassinato!"

O quase-assassino e a quase-vítima dão as mãos e dançam juntos, jogando serpentina para o alto. Salvou-se uma vida.

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Outras opções:

"Eu bebo água/Eu bebo vinho/Mas não cometo latrocínio!" pode passar a mensagem que nossa juventude precisa: Assaltar? Pode até ser. Seguido de homicídio? Jamais!

"Quem leva a vida/ Numa boa/ Não pode traficar pessoas!" poderia ter poupado a protagonista da novela das oito de muito sofrimento (e também a todos nós, vítimas de mais um rocambole da Glória Perez ).

"Pra fazer festa/ Eu tô a postos/ Pois não sonego meus impostos" seria útil se o governo quisesse mais dinheiro em caixa.

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Poderíamos evoluir muito, se soubéssemos explorar corretamente o potencial da nossa cultura no combate ao crime. Vou além: uma sociedade evoluída é aquela em que toda a comunicação se baseia em marchinhas. Qualquer lamento, crítica ou notícia ruim fica mais fácil de encarar com um sambinha no fundo. Quer ver?

"Que texto bobo/ Mas que vergonha!/ O blogueiro fumou maconha?/
 É nada disso/ Foi só insônia/ Daquele mordedor de fronha..."

Comentários

  1. Anônimo9:40 PM

    Faz tempo que os professores de cursinho são adeptos do "tudo é ensinável por marchinhas"!

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