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Um chato autêntico

Uma das maneiras que adotei para simplificar minha vida foi criar um tipo. Nada que eu tenha ficado na frente do espelho ensaiando, mas sim uma série de atitudes que eu via nos outros e passei a usar em mim mesmo.

Em pouco tempo, isso me transformou de uma pessoa tímida com medo da opinião alheia em uma pessoa com uma língua rápida, capaz de fazer mil graças e ironias em uma frase, numa banca que me tirava do modo que eu me via (tímido).

Demorei para perceber que a parte de mim que era tão disposta a vomitar opiniões era só uma casca ao redor do mesmo menino tímido que eu sempre fui. Eu era a mesma pessoa, enrolada na própria língua.

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O tímido tem ares de humilde mas é um grande orgulhoso. O tímido deixa de mostrar o que tem dentro de si porque tem medo de mostrar quem realmente é e, Deus me livre disso, alguém não gostar.

O tímido usa expressões como "Eu não preciso carregar bandeira disso", "Não preciso ficar gritando para o mundo o tempo todo", achando que realmente as outras pessoas saem pelas ruas gritando e carregando bandeiras.

O tímido se recusa a fazer qualquer coisa com o pretexto de "não sou bom nisso". Como é que o tímido, pessoa maravilhosa que é, ousaria fazer alguma coisa sem ser o melhor possível?

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Fiz anos de aula de canto e nunca cantei em público. Não sem estar completamente bêbado, ou fazendo a voz do Pato Donald, ou os dois.

Ninguém julga alguém que canta mal por estar bêbado. Ninguém julga o Pato Donald por não ser o Frank Sinatra.

Mas euzinho? Ou Frank, ou nada.

Ou pior: uma garrafa de vodka e o Pato Donald.

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É tudo uma questão de equilíbrio: não enfiar o pescoço na terra, nem enfiar opiniões garganta abaixo dos outros.

Sim, os extremos são mais seguros. Não se manifestar em absoluto e gritar o tempo todo são muito mais confortáveis do que falar o que realmente desejamos, quando achamos necessário. Normalmente a hora em que é necessário falar é muito desconfortável, e a opinião que desejamos emitir pode ser muito impopular.

É necessário correr o risco de ser chato. É preciso se deixar ser vulnerável. Antes que a opinião do outro seja negativa do que perder a oportunidade de ter uma alma genuína.

Assim se ganha a liberdade de ser um chato autêntico. Melhor ser livre do que perfeito.

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(Isso tudo vale mesmo que a gente morra de vergonha do que vai falar. Mesmo quando você escreve um texto que parece imitação do Paulo Coelho, ainda é melhor se manifestar genuinamente do que fazer tipo ou se calar por completo. Além de tudo, você se sente corajoso por ter enfrentado o medo de se expôr.)

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